União para driblar a crise

Raquel Coutinho e Kiko Klaus falam do papel do Movimento Difusor na criação de iniciativas culturais coletivas

iG Minas Gerais | lucas buzatti |

Mineiridade. Raquel Coutinho mostra amanhã a mistura ímpar entre da música regional e universal
Ana Migliari/divulgação
Mineiridade. Raquel Coutinho mostra amanhã a mistura ímpar entre da música regional e universal

“Eu não posso reproduzir uma cultura popular como o congado, por exemplo. Aquilo é deles. Me influencio dessa manifestação e deixo que ela transborde em mim, criando uma nova forma de expressão”. A frase é da artista mineira Raquel Coutinho, uma das atrações do festival Movimento Difusor, que acontece nesta quarta e quinta-feira, no Teatro Oi Futuro Klauss Vianna.

“Quando eu escuto o batuque mineiro, a marujada, o moçambique, o candombe, o congado, isso bate em mim de alguma maneira e reflete no meu trabalho. O que não quer dizer que estou copiando ou me apropriando”, explica Raquel. “Pelo contrário, estou somando a essas manifestações elementos da música universal que carrego comigo”, completa, lembrando nomes que tem escutado no momento, como Bjork, Peter Gabriel, Nação Zumbi e Otto.

Coutinho, que lançou no início do ano o disco “Mineral”, prova o quanto uma linguagem que bebe de elementos regionais ajuda a criar singularidade artística, além de divulgar a cultura popular. “Moro no Rio de Janeiro há seis anos. Aqui mesmo, você subir ao palco com um patangome (instrumento típico do congado) é uma coisa totalmente inédita”, explica. “E isso já é uma maneira autoral, individual e original de utilizar o nosso regionalismo. Assim como fazem todos os artistas que participam do Movimento Difusor”, lembra.

A artista lembra que a união promovida pelo festival também é importante para driblar a atual crise na cultura. “Isso mostra que os artistas conseguem se mobilizar. E que juntos são capazes de fazer algo”, pontua. “A Lei de Incentivo à Cultura contribuiu muito para a desarticulação da classe artística. Ela tirou de nós a possibilidade de ganhar dinheiro com o nosso trabalho. Hoje, as gravadoras são as empresas que utilizam da lei para patrocinar eventos culturais”, critica. “Quando me mudei, já não pude mais contar com Lei de Incentivo nem do Rio nem de Minas”, explica. “Precisamos recuperar aquele lugar do artista, que tornava possível viver com a sua música, com o seu público. Hoje, isso parou de existir. Ficou muito difícil tirar as pessoas de casa, principalmente se elas tiverem que pagar ingresso”.

Para o músico Kiko Klaus, pernambucano radicado em Minas, que se apresenta na quinta-feira, o Movimento Difusor mostra que os artistas não estão se acomodando diante das dificuldades instauradas pela crise na Cultura. “Estamos vivendo um momento delicado, devido à falta de verba e de patrocínios para a Cultura. Acaba de entrar um novo governo, que está reorganizando toda a política cultural. E é claro que isso tem impactos”, afirma. “Acho o festival interessante não só pelo conceito musical e artístico que ele carrega, mas por mostrar a força da mobilização da classe artística”.

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