Experimentalismos de um novo ator principal

Jonathan Tadeu estreia com disco lo-fi entre a psicodelia roqueira e a melancolia calibrada

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Som. Jonathan Tadeu gravou suas canções pelo WhatsApp e no estúdio caseiro da Geração Perdida
Rodrigo Valente de Noronha
Som. Jonathan Tadeu gravou suas canções pelo WhatsApp e no estúdio caseiro da Geração Perdida

Antes de tudo, Jonathan Tadeu não é um Quase Coadjuvante há tempos. A analogia à sua ex-banda, que marcou a cena underground mineira com belos e sofridos riffs de guitarra no início dos anos 2000, não é suficiente para comportar as ideias pulsantes que esse jovem talento da Geração Perdida de Minas Gerais destila no seu primeiro álbum solo, “Casa Vazia” (Independente), antecipado hoje, com exclusividade pelo Magazine.

Todas as dez canções inéditas de “Casa Vazia” foram produzidas por Vitor Brauer, da Lupe de Lupe, mixadas por Fernando Bones, e gravadas no estúdio caseiro da Geração Perdida de Minas Gerais. E nesse ponto a produção do cantor e compositor mineiro mergulha de cabeça no experimentalismo, ao usar desde gravações espontâneas feitas pelo WhatsApp, como “Estômago” e “Martini”, em que Jonathan Tadeu faz um relato de 6 minutos sobre a fossa e a tristeza, até samples retirados genericamente do YouTube, como em “Começar de Novo”, talvez a única balada do disco, na qual Jonathan Tadeu repete o título do single como um mantra (quase) solar.

De forma geral, os 32 minutos que preenchem “Casa Vazia” compõe um disco que parece carregar doses de morfina para aliviar dores particulares, ao mesmo tempo em que se permite estar suscetível à filetes pontuais de uma esperança sem nome, rosto ou identificação. Todo o drama ainda é intensificado pelo método lo-fi de gravação caseira, fazendo da baixa técnica de estúdio, um convite empático para a tristeza de “Casa Vazia”.

As dores mais compulsórias de Jonathan Tadeu estão em “Carlos José”, que ganhou clipe antes do lançamento do álbum, e carrega uma guitarra praticamente lúdica para apoiar versos arrastados em busca de uma felicidade sem máscaras (“você é bonito quando desarma o meu sorriso”). O mesmo tom vem em “Estorvo”. A canção se diferencia por abandonar certa apatia da faixa anterior, apresentando uma bateria pesada de Vitor Brauer com potentes distorções de guitarra de Jonathan Tadeu, que se permite desabafos rasgados nos versos: “quem suporta o tempo de ser pouco por tanto tempo”.

Entre gravações lo-fi que dominam o disco, mensagens instigantes vocalizadas em faixas instrumentais (“Reza”) e uma ou outra canção festiva, Jonathan Tadeu exorciza parte das inquietações loser da juventude contemporânea. Mesmo com os momentos baixos do disco, “Casa Vazia” finalmente traz à tona um ator principal, dono da própria história inerente a tantos outros corações maltratados dessa Belo Horizonte.

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