Quem é aquela garota?

Com programa de TV aclamado pela crítica e um longa a caminho, Amy Schumer é a comediante do momento nos Estados Unidos

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

As várias faces de Amy.
Peter Yang
As várias faces de Amy.

Imagine um remake de “Doze Homens e uma Sentença” encenado, quase quadro a quadro, preto e branco, na televisão em 2015. No elenco, atores como Jeff Goldblum, Paul Giamatti e Vincent Kartheiser. Só que, em vez de discutirem se um homem é ou não culpado de assassinato, eles devem responder à filosófica questão: “Amy Schumer é ou não gostosa o bastante para ter um show na TV?”.

Por cerca de 20 minutos, eles ponderam se conseguem ter uma “mínima ereção” pela comediante, se uma mulher realmente gostosa precisa fazer uso de consolos e vibradores, e os riscos para os padrões televisivos de deixar uma gordinha estrelar seu próprio programa.

Algumas semanas antes, Schumer já havia estrelado um quadro em que celebrava com Tina Fey e Patricia Arquette o “último dia trepável” da atriz Julia Louis-Dreyfus, a partir do qual todos os pôsteres de seus filmes seriam numa cozinha, e ela só seria escalada como mãe ou avó de alguém. E em outro, flertava com um homem em um bar para descobrir que, na verdade, ele estava a fim da cerveja na mão dela.

A esta altura, você deve estar se perguntando duas coisas. 1- Quem é Amy Schumer? E 2- qual o problema da autoestima dela? A resposta da primeira é a comediante de 33 anos, estrela de “Inside Amy Schumer”, programa de esquetes exibido no Brasil pelo canal Comedy Central, de terça para quarta, à 0h – e que, em sua terceira temporada nos EUA, tem recebido elogios rasgados da crítica como o melhor show cômico na TV hoje.

E a resposta da segunda é: absolutamente nada. As descrições acima podem dar a impressão de que, assim como Melissa McCarthy, Schumer se oferece como piada por estar fora dos padrões esqueléticos de beleza hollywoodianos. Mas, na verdade, ela está rindo do absurdo desses padrões. “Me sinto muito confortável com meu corpo e, quando alguém faz piada sobre meu peso, fico com raiva porque estou exatamente do jeito que quero ser”, afirmou em entrevista à revista “Variety”.

Na paródia de “Doze Homens”, a crítica não é direcionada ao físico da atriz, mas sim à forma boçal como homens conversam sobre mulheres – como se avaliassem uma peça de carne boa ou não para churrasco. Mais ainda: ela está criticando a própria indústria em que trabalha, que trata as mulheres exatamente da mesma forma. Nenhum dos atores em cena é exatamente galã, mas o talento deles nunca seria questionado por causa de sua aparência.

Acha exagerado? Na semana passada, a atriz Maggie Gyllenhaal, 37, afirmou que um estúdio a considerou velha para viver o interesse amoroso de um ator de 55. Transformar esse tipo de cenário em combustível para seu humor sem papas na língua e sem concessões é o que tem feito os críticos considerarem Schumer uma das vozes mais originais e provocadoras do humor hoje.

Porque, por mais que o sexismo tente propagar o contrário, mulheres engraçadas não são nenhuma novidade. Desde a Lucille Ball de “I Love Lucy”, passando por Carol Burnett, e chegando a Tina Fey, Amy Poehler e Lena Dunham hoje, comédia não tem nada a ver a saia com as calças. No Brasil, Dani Calabresa e Tatá Werneck não perdem para Marcelo Adnet ou Fábio Porchat.

O que diferencia Schumer é que ela está usando seu talento para dissecar todo o machismo, sexismo e as imagens femininas nada saudáveis da cultura pop que a cerca. O que é pioneiro porque, até então, mulher podia até fazer piada, desde que não incomodasse o patriarcado.

No entanto, Schumer – com graduação em artes cênicas e dez anos de experiência como stand-up – não está interessada em ser uma lady. Roteirista além de atriz, seus esquetes (que têm viralizado na internet em menos de 24h) abordam da escatologia à cultura do estupro, e a risada é incontrolável porque seu humor subverte qualquer expectativa do que é “aceitável” ou “padrão”.

E não se trata de comédia para mulheres ou “anti-homem”. É anti-sexismo: Schumer ridiculariza as mulheres que se submetem e reforçam comportamentos machistas da mesma forma que ri da boçalidade masculina.

O olhar inteligente com que ela faz isso conquistou fãs famosos, como Tilda Swinton. A atriz escreveu um poema para a comediante, quando ela saiu na lista dos cem mais influentes da revista “Time” em 2015, e aceitou um papel no primeiro longa escrito e estrelado por Schumer.

“Descompensada” (perceba o sexismo na tradução do título nacional, com um adjetivo que nunca seria usado para um homem, para o original unissex ) é dirigido por Judd Apatow. Uma versão em trabalho do filme exibido no Festival South by Southwest em março recebeu as melhores críticas da carreira do diretor. A previsão de estreia no Brasil é 24 de setembro. Porque talvez você ainda não saiba quem é Amy Schumer. Mas isso não vai durar por muito tempo.

 

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