Invisível para quem mesmo?

Tamara Franklin prepara o lançamento de “Anônima”, segundo disco solo e físico de rap de uma mulher em BH

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Invisíveis. Depois da morte da irmã Thalita, Tamara Franklin direcionou seu discurso principalmente para jovens que “morrem sem chance de saber ao menos quem podem ser”
Lincon Zarbietti / O Tempo
Invisíveis. Depois da morte da irmã Thalita, Tamara Franklin direcionou seu discurso principalmente para jovens que “morrem sem chance de saber ao menos quem podem ser”

Tamara Franklin não disfarça condições em meias palavras. Parece mesmo “mais uma preta marrenta, vinda das ruas barrentas, dos versos sujos e puros, melhor que as letras limpa e nojenta”, como ela vocifera no single “Anônima”. Vestindo uma jaqueta vermelha, calça blue jeans, lenço prendendo a cabeleira afro e um tênis Adidas colorido, ela olha a pracinha onde cantou pela primeira vez com um microfone, no centro de Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte, quando mal tinha dinheiro para ir de ônibus à escola. Ali, parece afirmar, ainda que pelo silêncio que dispensa frases literais, que o mundo não contava mesmo com sua astúcia.

Cristã, negra, pobre e sem nenhum conhecimento ou grana para ser artista, Tamara Franklin se tornou hoje produtora do próprio som, compositora, cantora e poeta da rua, representante de cidadãos invisíveis. Com apenas 24 anos, ela é a terceira personagem da série dominicial do Magazine Rimas de Minas, e a segunda MC a lançar um álbum solo e físico de rap em Belo Horizonte, indo do blues ao samba, dispensando padrões pré-concebidos do hip hop.

Mesmo que tenha criado burburinho na cena hip hop há pouco tempo, Tamara está inserida como pioneira de um movimento que ela mal conhecia há dez anos. Nascida e criada no bairro Pedra Branca, em Ribeirão das Neves, a MC esteve acostumada a ouvir hinos evangélicos da mãe e sambas, de Adoniran Barbosa a Martinho da Vila, assobiados pelo pai. A infância foi praticamente rural, com brincadeiras no mato que crescia desordenadamente em volta de casa, pique-pega, esconde-esconde e todas as arruaças de criança protagonizadas quase sempre na rua 40.

A poesia, desde os 7 anos de idade, acompanha os rabiscos de Tamara, que sempre escreveu “para externar o sufoco”, influenciada pela vivência da rua e não pela forma estética de alguma referência do gênero, seja Pablo Neruda ou Clarice Lispector. “Não acredito tanto que a questão seja ler a poesia. Mas sim ver a poesia, conseguir reparar o verso. Uma mulher que grita na rua, um cachorro que passa latindo. Isso é poesia”, crava a MC.

Com esse olhar ampliado, o rap veio como instinto óbvio em suas preferências. “Era o que falava da gente, da nossa condição, sem palavras escondidas. Eu ouvi gente como Apocalipse 15, Provérbio X, Professor Pablo, muita gente gospel. Eu nem pensava em ser artista, só estar perto dessas pessoas, poder conhecê-las de perto mesmo”, diz.

O sonho começou a virar realidade quando ela passou a frequentar o Gueto Gospel, reunião semanal promovida no Lourdes só com grupos de rap cristãos, onde conheceu o DJ Conja, responsável por apresentar os eventos de rap na cidade, e o DJ Snoop, da Na Tora Produções, que fez as primeiras gravações de Tamara. “Foram quase seis anos ali dentro que me direcionaram para entender o hip hop. A minha mãe achava rap coisa do capeta, mas ouvir rap dentro da igreja não podia estar errado”, diz a MC às gargalhadas.

Na época, Tamara e a irmã, Winy Franklin, mataram aula em diversas quintas-feiras para não perder os encontros do Gueto Gospel. Porém, não foram poucas as vezes que tiveram que andar a pé por 2 horas e meia, do Pedra Branca até o Serra Verde, em Venda Nova, para chegar à escola. “Muitas vezes a gente não tinha o troco para o ônibus. É claro que, olhando hoje, era sofrido andar isso tudo embaixo do sol, mas a gente se divertia fazendo o trajeto, não tinha reclamação, não”.

Em 2005, Tamara e Winy iniciaram uma pequena grande revolução ao inaugurar o duo Hip Hop sobre o Salto: duas negras no palco, sempre de salto alto, maquiadas com apelo feminino para destilar um forte discurso feminista que o hip hop machista não estava tão acostumado a engolir. O primeiro show foi feito com beats genéricos, gravados em um CD compacto pelo DJ Conja, e usados por diversos grupos de rap da cidade. “Era engraçado ver três músicas no mesmo show com a mesma batida. Depois a coisa foi se profissionalizando mais, até porque não existiam beatmarkers e home estúdios como temos hoje”, lembra Tamara.

PEDREIRA. Quando começa a falar sobre o ano de 2010, ela muda o tom de voz para contar os percalços de sua história. Primeiro, a gravidez da irmã Winy acabou com o H2s2, interrompendo uma promissora carreira em plena ascensão. “Era impossível continuar pela dedicação que minha irmã teria. Sem ela, não fazia qualquer sentido”, diz.

A solução foi inserir a irmã caçula, Thalita Franklin, de apenas 14 anos, no mundo de rimas e beats. Durante quase um ano, Tamara e Thalita se tornaram mais do que habituais confidentes que dividiam o mesmo quarto, para também firmarem uma parceira no rap. Em 2011, porém, a precoce morte de Thalita, provocada por uma infecção generalizada devido a uma simples dor de garganta, caiu como um balão de chumbo na cabeça de Tamara. “Eu simplesmente não quis fazer mais nada da vida. Fiquei completamente perdida, imagina em termos de composição, pra cantar, então? Pra mim tinha acabado tudo. E olha que eu não vejo a morte como algo totalmente ruim, não tenho esse horror à morte. Mas foi barra”, diz.

VIRADA. Mesmo tendo cicatrizes ainda abertas quando toca no nome da irmã, Tamara não cai nas armadilhas de dramatizar sua própria vida. O olhar quase sempre fugido para qualquer linha neutra do horizonte mantém uma firmeza inerente a quem parece ter feito da dor uma inspiração – e não uma patologia incondicional.

Na ausência da irmã, Tamara Franklin começou a se preocupar com o futuro dos jovens da periferia que, a exemplo de Thalita, morreriam por banalidades. “Eu comecei a escrever sobre esses sentimentos. Sobre anônimos que moravam do lado da minha casa. Comecei a me reconhecer nos anônimos e falar deles, de mim”, diz a artista.

Depois de marcar presença por rolês como Duelo de MCs, Rima na Rua, Rap Lá da Favelinha e diversos eventos de hip hop pela cidade, Tamara articulou a gravação de seu primeiro álbum, intitulado “Anônima”. Com dez faixas, o disco foi todo produzido na Xeque Mate Produções, capitaneada pelo MC Eazy CDA. Além do single que dá nome ao álbum, outras nove faixas passeiam do blues à raga, incluindo um sample de Adoniran Barbosa. Previsto para ser lançado em agosto, o álbum marca uma história no rap mineiro. “Acho que o disco é importante para fechar e marcar um ciclo, abrindo novas portas. É como tornar real algo que todo mundo desacredita”.

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