Residentes firmam laços com o bairro Jardim Canadá

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |


Hugo Richard leva pesquisa com infláveis à região de Nova Lima
HUGO RICHARD
Hugo Richard leva pesquisa com infláveis à região de Nova Lima

A nova sede do JA.CA – Centro de Arte e Tecnologia, montada num terreno do bairro Jardim Canadá, em Nova Lima, e basicamente composta por contêiners, reforça a maneira como se constitue o viés dos trabalhos desenvolvidos no espaço. Exemplo disso é a residência “Dispositivo Móvel”, promovida ali, e que reuniu os artistas Hugo Richard (RJ), Ana Luisa Lima (PE) e o coletivo Micrópolis (MG). Todos apresentam os seus processos de pesquisa e de criação no evento de inauguração da casa que acontecerá hoje.

Francisca Caporali, cofundadora e coordenadora artística do JA.CA, ressalta como um dos pontos que qualifica propostas como essa, a tentativa de se retirar do artista a obrigação de ele desenvolver um projeto expositivo durante essa etapa de imersão.

“Não é que a gente não acredite na exposição. Mas defendemos que durante a residência o artista pode ter uma liberdade e uma flexibilidade de tempo de produção que não necessariamente precisa ser aquele intervalo. A gente não quer que o artista se mate para ter uma coisa pronta, na correria, mas que possa usufruir de um tempo mais dilatado. É possível começar algo aqui e terminar daqui a três meses na casa dele ou em outra residência, acreditamos nessa lógica da potencialização e da reverberação”, explica.

Agora num ambiente praticamente desprovido de paredes, se comparado ao formato dos galpões que o abrigou anteriormente, o JA.CA, ao seu ver, surge mais como um laboratório de ideias do que uma espécie de galeria. “Nas outras duas sedes que tinham estruturas com pés direitos altíssimos, eles logo eram transformados em galerias, embora desde o primeiro ano nós instigamos os artistas a não se prenderem a esse objetivo. No ano passado, quando fizemos uma residência no Centro de Fotografia e Arte Contemporânea de Belo Horizonte, poucos artistas também entenderam isso, a maioria começou a colar coisas na parede, a fazer instalações. Poucos entenderam o que a gente queria e houve, por exemplo, quem propôs uma aula de yoga, no lugar, o que foi muito legal”, conta Caporali.

“Então, para gente é incrível que aqui não existam paredes. Os artistas podem pensar em outras coisas. Eu brinco que se eles quiserem colar um lambe-lambe no muro do terreno é possível. Aqui não tem um lugar asséptico da arte, não existe o cubo branco, tem vento, tem jardim, tem terra, uma dinâmica própria do lugar que favorece outras relações”, completa.

Em sua primeira vez convivendo no bairro, embora já tivesse visitado o JA.CA em outros momentos, desde a primeira sede, Ana Luisa Lima observa que essa experiência impregnou o filme “Zona Habitável”, que será exibido hoje. “Quando eu comecei a viver aqui, eu notei algumas dificuldades que fazem parte do cotidiano de quem mora nesse local. O lugar mais parece feito para os carros passarem e não para as pessoas. São poucas as calçadas, então, eu acho que isso agravou o tom solitário do vídeo, que reflete sobre a condição humana. O fato de estarmos aqui ao lado de uma mina de extração de minério e, ao mesmo tempo, de paisagens belíssimas e até uma cachoeira, me fez pensar como a gente vive, ao mesmo tempo, com a riqueza e escassez”, afirma.

Richard, que propõe ações nas imediações e no mirante do parque do Rola Moça, revela ter conseguido um olhar mais integrado com a região. “Eu tinha a noção de conhecer apenas a entrada do bairro. Desta dez, houve um movimento para dentro que modificou não só a nossa visão, mas a relação com o entorno também, o que nos abre novos caminhos”.

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