Na cadência bonita do samba

iG Minas Gerais | Giselle Ferreira |

O samba e toda a sua poesia são os protagonistas do musical que promove a estreia de Diogo Nogueira como ator
GUTO COSTA/DIVULGAÇÃO
O samba e toda a sua poesia são os protagonistas do musical que promove a estreia de Diogo Nogueira como ator

“Eu sou o samba... A voz do morro sou eu mesmo sim, senhor...” Canção que fez a carreira de Zé Keti decolar em 1955, “A Voz do Morro” explica, em poucos versos e notas, tudo o que alguém precisa saber sobre o samba. Só o sucesso que ela faz até hoje já bastaria para justificar sua presença em qualquer repertório, mas num musical sobre o gênero, poucas músicas servem melhor do que esta para introduzir o tema. 

Juntamente com versos declamados e músicas de Pixinguinha, Silas de Oliveira e Nelson Sargento, a de Zé Keti abre o primeiro ato de “SamBra – 100 Anos de Samba”, espetáculo que vem à cidade para duas apresentações nos dias 29 e 30. Nesta abertura, Diogo Nogueira é o mestre de cerimônia que evoca as grandes personalidades e convida os mestres do samba a contarem sua história.    De Ismael, Tia Ciata, Francisco Alves, Carmen Miranda, Grande Otelo e Cartola a Jorge Aragão, a homenagem remonta os momentos mais marcantes do centenário do ritmo – a ser comemorado em 2016. Ao longo de duas horas e 30 minutos, cerca de 70 músicas são cantadas e outras 25 têm trechos declamados na costura da dramaturgia.   Escrito e dirigido por Gustavo Gasparani, o musical vai de “Pelo Telefone”, de Donga – supostamente o primeiro samba gravado no país – até os pagodes de mesa do Cacique de Ramos, último movimento musical de transformação do samba, segundo o autor da peça.   “Parti de um recorte que privilegia os momentos de transição do samba. Dos mais primitivos como os da Praça XI, vamos ao teatro de revista, com Noel Rosa e Ari Barroso, e ao samba-canção. Em seguida passamos pela Bossa Nova e pelos sambas politizados da Tropicália para, por fim, chegar nos samba-enredos e nos pagodes do Cacique”, detalha Gasparini.    No sangue Autor de “Clara Nunes – Brasil Mestiço”, “Rio… Enredo do Meu Samba!”, “Otelo da Mangueira” e “Samba Futebol Clube”, Gasparani – fã de Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Alcione, Beth Carvalho e Clara Nunes – quis que o elenco também tivesse uma ligação passional com o tema. “Escolhi quem fosse do samba e tivesse ligações umbilicais com ele”, explica, sobre a escolha por atores como Patrícia Costa, passista e neta de Claudio Bernardo da Costa, fundador da escola de samba de mesmo nome, Beatriz Rabello, filha de Paulinho da Viola, e Diogo Nogueira, filho de João Nogueira.    Ao sambista, que faz sua estreia como ator, o diretor não poupa elogios. “Ele vestiu mesmo a camisa. Foi ótimo por ele ser muito aberto, parceiro, disponível e humilde. A dedicação dele fez a diferença”, diz Gasparani sobre Diogo, que conta do período em que precisou cancelar shows para focar no espetáculo.    “Me coloquei no ‘banco da escola’ novamente, participando ativamente de todos os workshops que tivemos: dança, interpretação, canto e tudo mais. Por fim, entendi que um texto deve passar pelo coração antes de ser falado”, explica o cantor, que confessa ser difícil dominar emoção e voz na cena em que seu pai é homenageado.   “O samba faz parte da minha vida e não me vejo fora desse contexto. Lá em casa, o samba sempre foi o ‘pão nosso de cada dia’. Meu pai promovia rodas de samba e muitos dos personagens e memoráveis sambistas que citamos em ‘SamBra’, eram cantados lá em casa. Sou um sambista de berço e o espetáculo todo me emociona, mas na homenagem ao meu pai o peito bate mais forte”, afirma.   A cena a que ele se refere ilustra a passagem de bastão do mestre para o sambista mais novo: tentativa de não deixar o samba morrer, como clama o hino de Edson Conceição e Aloísio. Diogo é quem recebe o violão como herança do legado do velho poeta e fecha o primeiro ato com “Súplica” e “Poder de Criação”, frutos da prolífica parceria entre seu pai e Paulo César Pinheiro.   “Essa sequência também é das que eu mais gosto. Pode vir a moda que vier, o samba é a nossa maior identidade nacional e tem cadeira cativa na história da nossa MPB. Ele merece essa ode à sua poesia. Como alguns versos de Candeia e outros de Noel disseram, não basta ter inspiração pra cantar samba. Batuque é um privilégio e ninguém aprende samba no colégio”, conclui Gasparani.    SamBra Dir. Gustavo Gasparani Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1.537, centro, 3236-7400). Sexta (29) e sábado (30), às 21h. R$ 140 (inteira, plateia 1), R$ 120 (inteira, plateia 2), R$ 100 (inteira, plateia superior) e R$ 50 (promoção, plateia superior).

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