Silas Eustáquio Gideão Cota

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Eu poderia oferecer aqui, como tenho feito habitualmente com os personagens abordados pela “Enciclopédia das Personalidades”, esse mapeamento extravagante e quixotesco, um perfil ligeiro de Silas Eustáquio Gideão Cota, um pequeno recorte do que o verbete com seu nome registra em nossa publicação. Mas não. Vou apenas reproduzir um sonho que ele me contou em um de nossos encontros: “Estávamos eu e minha mulher, e você bem sabe que eu não sou casado, mas no sonho eu era. Então, estávamos eu e minha mulher andando à noite por uma praça no centro de uma cidade que não conheço, mas que tinha um certo ar europeu. Imagino que era o centro por causa do movimento, das luzes, dos neons. Atravessamos uma avenida e paramos à porta do que nos pareceu ser um clube noturno, uma boate ou coisa do tipo. Era uma entrada acanhada, quase que um buraco que conduzia a uma escada descendente. Resolvemos entrar. Já no primeiro degrau, havia uma nota de dez reais, e, três degraus abaixo, havia outra e, passado o mesmo intervalo, outra, e assim sucessivamente. Fomos descendo, adentrando o recinto, que era muito mal iluminado, e eu recolhendo as notas. Ao sopé da escada reparei, apesar da penumbra, que as notas seguiam como que fazendo uma trilha. O lugar, de fato, era uma boate, mas estava vazia, apenas dois atendentes atrás de um balcão encimado por vários tipos de bebida. Comecei, naturalmente, a seguir a trilha de dinheiro. ‘Não é perigoso?’, minha esposa me perguntou. Suponho que não, por que seria?, retruquei. Eu não estava propriamente interessado em valor, não estava querendo encher o bolso de dinheiro, não havia cobiça monetária, se é que posso dizer assim. Eu seguia o rastro de notas como quem segue uma pista. E ele, o rastro, nos levou a um outro cômodo. O lugar, o geral, tinha algo de casa, ia-se andando por corredores e passando de uma sala a outra, só que com a decoração e a iluminação de uma boate. Depois de muito seguir as notas, chegamos à entrada de um grande salão, repleto de jogos eletrônicos, mesas de bilhar, de totó, máquinas de pinball, enfim, era como um enorme cassino que se estendia a perder de vista. Na entrada desse salão, um homem que parecia ser o Silvio Santos, sorridente e um tanto afetado, me entregou, sem fazer caso do calhamaço de notas de dez reais que eu trazia na mão, um saco cheio de fichas, que supus fossem para os jogos no interior do salão. Entrei e nesse momento minha esposa já não existia, você sabe, sonhos não tem lógica e esse também não tinha, então, minha esposa já não existia e eu me peguei vidrado em frente aos jogos. Pulava de um para o outro e assim fui seguindo um percurso labiríntico pelas entranhas desse cassino até que, muito tempo depois, cheguei ao que parecia ser a saída, muito iluminada, como deve ser a entrada do paraíso celeste, só que com muita algazarra, uma charanga, várias moças louras uniformizadas como animadoras de torcida, malabaristas e o mesmo sujeito com cara de Silvio Santos sorrindo, me aguardando com um reluzente troféu na mão. E foi aí que o sonho acabou”. Crônica originalmente publicada no dia 31/5/2013. O colunista está de férias

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