Reflexões sobre a violência

iG Minas Gerais |

O episódio da semana passada, no estádio La Bombonera, quando torcedores do Boca Juniors atiraram gás tóxico no túnel de acesso dos jogadores do River Plate ao gramado, está fazendo a Argentina refletir sobre a violência no futebol. A própria diretoria do Boca está muito assustada com a proporção que o caso tomou. Assim como no Brasil, muitas famílias argentinas se afastaram do futebol por causa da violência. Ouvi pessoas aqui, em Buenos Aires, dizendo que, infelizmente, não acreditam em uma mudança de cenário e que esses torcedores violentos acabam sendo protegidos por leis brandas e por uma certa conivência do mundo esportivo, como se isso precisasse ser permitido no futebol. As entidades, que deveriam dar o exemplo, simplesmente lavam as mãos, na maioria das vezes, e não coíbem a violência com o rigor necessário. A Conmebol é um exemplo disso. Enquanto a entidade maior do futebol sul-americano insistir em aplicar penas brandas, fatos como aquele visto no La Bombonera vão continuar sendo rotina no futebol.

O grande responsável por toda a confusão no jogo Boca x River já foi identificado: é Adrián Napolitano, um torcedor fanático do Boca, famoso por se envolver em confusões nos estádios. Se o rigor existisse de fato, ele nem deveria estar na Bombonera na semana passada. Mas faltam fiscalização e empenho das autoridades em banir esses marginais dos estádios, em identificar essas figurinhas carimbadas que só mancham a imagem do futebol. No Brasil ou na Argentina, não podemos mais conviver com medidas paliativas. Não dá para conviver com bandidos travestidos de torcedores ou com gangues se fantasiando de “torcidas organizadas”. Esses grupos funcionam como para-raios para atividades criminosas. Em muitos casos, beira a formação de quadrilha. Prova de que as chamadas “torcidas organizadas” se confundem muitas vezes com gangues é o ocorrido na Argentina. Torcedores cruzeirenses de uma facção viajaram por dois dias de ônibus para chegar a Buenos Aires, adquiriram ingressos para o jogo e se encontraram com os chamados barra bravas do San Lorenzo e do Boca. São torcedores com ficha criminal extensa na Argentina e que não poderiam frequentar estádios de futebol. Por meio dos cruzeirenses, os barra bravas buscaram ingressos para conseguir acesso ao Monumental de Núñez. Felizmente, a polícia argentina conseguiu identificá-los, e todos foram detidos, depois de aprontarem pelas ruas da cidade. Ou seja, eles acabam vivendo como quadrilhas organizadas. Saem de casa para se juntar a pessoas que também vivem aprontando confusão. Como diz o ditado, “um gambá cheira o outro”. Esse exemplo mostra que há uma rede de relações entre os bandidos do futebol. “Torcedores” que se conhecem, se relacionam e colaboram entre si como verdadeiras quadrilhas, com o objetivo de marcar território. Enquanto milhares de torcedores do Cruzeiro saíram de Belo Horizonte com a intenção única de apoiar o time contra o River, outros, que já aprontam em BH, vieram para a Argentina com outro objetivo. E, infelizmente, a grande maioria paga por uma minoria de vândalos. Eram quase 2.000 cruzeirenses por aqui. E um ônibus com aproximadamente 40 torcedores, ou seja, a minoria, vem com o objetivo de aprontar. E é essa minoria que promove confusões e brigas. O pior é que eles estão sempre livres e impunes, viajando pela América do Sul, de jogo em jogo, vivendo como torcedores profissionais. Deveríamos copiar o bom exemplo da Europa, que baniu os vândalos dos estádios de futebol. Por lá, existe o cadastro único de torcedores. Quando viajei com a equipe da Itatiaia para a cobertura da Copa da Alemanha, em 2006, vi alguns torcedores ingleses sendo barrados no aeroporto de Paris. Conseguimos apurar que eram hooligans. Identificados pela polícia local, eles foram impedidos de viajar. A Europa criou mecanismos, punindo e levando para a cadeia os marginais das arquibancadas. De 20 anos para cá, essa realidade de torcedor violento mudou. Fatos como o da Bombonera são impensáveis no futebol europeu. E no futebol sul-americano isso ainda é tolerado, aceitado e, por alguns, até cultuado. Enquanto não criarmos mecanismos de cadastrar e fiscalizar os bandidos do futebol, fatos lamentáveis continuarão acontecendo. Temendo punições pesadas, os clubes se veem obrigados a montar verdadeiras operações de guerra, em um cenário que deveria ser de absoluta paz e tranquilidade. É um absurdo ver o River Plate colocar 1.650 pessoas para garantir a segurança em um estádio. É vergonhoso para o futebol, é a falência da sociedade. Infelizmente, a violência, não só no futebol, se transformou em uma epidemia na sociedade latino-americana. E o futebol, que deveria dar o exemplo, contribui significativamente para que essa epidemia se alastre. Até quando? * Esta coluna foi fechada antes do encerramento do jogo River Plate x Cruzeiro, pela Copa Libertadores da América.

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