Fórmula de um boteco vencedor

Da ameaça da falência às contas em dia com casa cheia, bicampeão do concurso conta sua história

iG Minas Gerais | Lygia Calil |

Satisfeito com a própria criação, Washington Sheffield Grenfell exibe o Já Tô Innrolado, petisco ganhador do Comida di Buteco 2015
douglas magno
Satisfeito com a própria criação, Washington Sheffield Grenfell exibe o Já Tô Innrolado, petisco ganhador do Comida di Buteco 2015

Bicampeão do festival Comida di Buteco e único vencedor de duas edições consecutivas do concurso (2014-12015), o bar Já Tô Inno, no Barreiro, passou muito perto de ter as portas fechadas. O boteco ia mal antes de ser convocado para o time de 45 bares da capital mineira a participar da competição.

A história do homem à frente do negócio, o botequeiro com nome de gringo Washington Sheffield Grenfell, 42, é um exemplo de como o concurso pode ser transformador. “Se não fosse o Comida di Buteco, o bar tinha sido transformado em um salão de festas”, diz ele. “No dia em que a comitiva esteve aqui pela primeira vez, eu estava no balcão desabafando com a minha ex-mulher, dizendo que ia fechar o bar”, revela.

Se antes o bar empregava somente Washington, hoje são 13 pessoas fixas e mais alguns freelancers durante os fins de semana. A família foi toda convocada: irmã, cunhado, sobrinho e filho do dono agora participam do dia a dia do bar. Até a mãe dele, aos 80 anos, vive por lá para oferecer apoio.

No mesmo ponto há 19 anos, na frente da casa onde Washington mora, o bar surgiu porque o botequeiro estava cansado do marasmo da vida burocrática de bancário. Trocou o banco por uma churrasqueira: era ali que ele preparava as carnes que fizeram a fama do bar pelo bairro.

O nome do boteco era o apelido de Washington durante a juventude. “Eu era um enrolado mesmo, a frase que eu mais dizia era ‘já estou indo’. Quando fui abrir o bar, um amigo me disse que esse devia ser o nome. Aí pegou”.

A ascensão dos espetinhos na cidade quase o tirou de cena. “O forte aqui era o churrasco a quilo, que eu sempre gostei de fazer. Não queria fazer espetinho”, afirma. E naquela fatídica noite em que a equipe do Comida di Buteco chegou para conhecer o estabelecimento, foi justamente um espetinho que o salvou: a kafta.

Bom contador de história, como convém a todo botequeiro, Washington narra com orgulho sua curta trajetória no concurso. E um dos causos preferidos é aquela noite. Já era quase madrugada e a churrasqueira estava apagada. Com o bar quase fechando, a equipe comandada por uma das fundadoras do concurso, Maria Eulália Araújo, entrou no boteco. “Ela me perguntou se podia pedir qualquer opção do cardápio, se alguma coisa estava em falta. Eu fiquei tão nervoso que nem pensei, disse que sim”, relembra.

Para o desespero dele, o pedido foi a tal da kafta. “Nada estava preparado: a carne não estava moída, a churrasqueira, apagada, e eu a ponto de ter um troço no coração. Na hora, o processador da carne sumiu. Procurei por todos os lugares, quase fiquei maluco. Aí improvisei: cortei tudo na ponta da faca. Chamei minha mãe, pedi para ela rezar por mim e fiz. Quando a carne deu a liga, eu não acreditei”, conta.

Foram 15 dias até receber a resposta. De novo, a mãe foi chamada às orações. Após receber o “sim” da organização, algumas preocupações se apresentaram no horizonte: o bar deveria ter uma cozinha (que, até então, não existia), ele precisava criar um prato, juntar dinheiro para a reforma do espaço e – para ele, o pior – não podia contar para ninguém que havia sido selecionado pelo concurso.

Uma coisa de cada vez, tudo foi resolvido – mas não sem uma dose de ansiedade e angústia, que compensaram, no fim: o resultado foi o primeiro título de vencedor do Comida di Buteco, no ano passado. Então, o petisco vencedor foi o Jeitinho Mineiro: filé mignon suíno, recheado ao molho especial acompanhando por mandioca na manteiga e torrada de alho poró.

E é claro que ele queria repetir a façanha neste ano. Mas quando soube que o tema seriam frutas, Washington confessa ter tremido. “É uma mistura que eu não gosto, então tive medo. Mas os desafios estão aí para ser superados, não é? Comecei a bolar o prato e ninguém acreditava que a combinação fosse ficar boa”, conta.

No petisco Já Tô Innrolado, ele preparou enrolados de vários cortes bovinos, recheados com bacon, queijo e maçã. Para acompanhar, batatas ao murro gratinadas e geleia de morango reduzida com rapadura. Está aí a fórmula do campeão: “Queria devolver para o Comida di Buteco tudo o que ele fez por mim e pela minha família. O tira-gosto foi o jeito que eu encontrei de fazer isso”, diz, emocionado.

No último domingo, enquanto caminhava até o pódio da Saideira, a festa de encerramento do concurso, para receber seu segundo troféu, Washington só conseguia pensar em uma coisa: “Mais um ano com 13 empregos garantidos. Inclusive o meu”, respira, aliviado.

Serviço. Rua Benjamin Dias, 379, Barreiro. (31) 3384-1198

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