Inspiração no sol nascente

Casa Fiat de Cultura recebe a mostra “Fernando Pacheco – Atelier em Movimento”, motivada por viagem ao Oriente

iG Minas Gerais | RAFAEL ROCHA |

Um piano atrás da porta. A imagem de um pianista é recorrente em suas telas e, segundo o artista, reflete sobre o poder da imaginação
nina pacheco/divulação
Um piano atrás da porta. A imagem de um pianista é recorrente em suas telas e, segundo o artista, reflete sobre o poder da imaginação

Como aconteceu com todos nós, a internet mudou a vida do pintor Fernando Pacheco. Nem tanto pelo mundo que se abriu na tela de seu computador pessoal, mas sim pela oportunidade de sua arte poder se espalhar pelo mundo.

Não é força de expressão. A reviravolta aconteceu há quatro anos, quando um médico aposentado de Taiwan, residente na Nova Zelândia, ficou sabendo da existência do artista mineiro. Espécie de mecenas, o doutor não só veio ao Brasil para conhecer de perto os traços cintilantes do artista, como também financiou idas do pintor a países do Oriente para participar de exposições. Uma série de telas começou a ser produzida pelo artista, motivado por essa jornada ao Oriente, e o resultado dessa produção recente preenche a exposição “Fernando Pacheco – Atelier em Movimento”, que será aberta hoje na Casa Fiat de Cultura.

Três vídeos, uma instalação e 23 pinturas compõem a mostra, que Pacheco afirma representar o que ele trouxe desses países em sua mala. O principal item dessa bagagem, segundo ele, é o silêncio. “Aqui é tudo muito barulhento, então aprendi com os orientais essa economia de sons. E também uma economia de traços, os ideogramas, a caligrafia japonesa. Quero fazer um trabalho no campo da pintura que seja mais reflexivo”, diz.

Dessas expedições, a mais recente teve como destino Nova Zelândia e China, num trajeto que durou quatro meses durante o ano passado. Japão e Austrália já haviam sido destinos anteriores. Todo esse contato com o outro lado do mundo tem deixado Pacheco tão radiante quanto seus traços. “É muito gratificante a gente ter uma cultura e idioma tão diferentes e poder ser recebido graças à arte”, comenta o artista. Apesar disso, arte brasileira nos lugares por onde Pacheco andou era assunto desconhecido. “Muitas pessoas lá nem tinham ideia sequer de onde fica o Brasil”, completa.

Mas essa calmaria oriental e seus silêncios não seriam discrepantes em meio a tantas cores fulgurantes, característica tão marcante nas telas do pintor? “Minha pintura realmente é saturada de elementos, figuras e de cor, mas a falta do espaço vazio gera o desejo desse espaço vazio”, reflete. Outro caminho possível dessa aparente necessidade de quietude, quem sabe, não tenha a ver com o budismo praticado por seu mecenas, segundo Pacheco, “um homem rico que queria achar alguém vivo com um trabalho vibrante, com força e que emocionasse”.

Impossível não voltar para sua terra e não fazer comparações entre essas culturas, que mesmo sendo diferentes, acabam dialogando. “O próprio Van Gogh foi um que recebeu influência japonesa”, explica o artista. A valorização dada às artes nesses países deixou Pacheco afiado sobre o tema. “Para eles, quanto mais velho o artista, mais conhecimento adquiriu. Não é como no Brasil, que só valoriza jovem. Passou dos 30 anos aqui já é considerado velho”, questiona.

Com 45 anos de trajetória artística, Pacheco tem condições de avaliar os rumos da arte sob o viés da crítica e do business, especialmente a poucos dias da cidade realizar uma feira de artes. “Sinto falta dos salões de arte que eram organizados pelo Palácio das Artes e pelo Museu da Pampulha. Os próprios artistas inscreviam suas obras e podiam participar. Agora são feiras que comandam, com seus marchands, galeristas e curadores. Para o jovem artista ficou algo mais fechado, difícil de inserir”, avalia.

Entre as duas dezenas de quadros da exposição, uma série de cinco delas, intitulada “Pianista”, se originou após o pintor assistir a uma apresentação do pianista Ray Charles na televisão. “Achei aquela imagem deslumbrante. Ele cego, tocando um piano de cauda que refletia a luz do palco e usando um smoking brilhante. Quero isso no meu trabalho, um olhar da imaginação. Quando a fantasia ganha força, vira realidade. Isso move o mundo”, finaliza.

Programe-se

O QUÊ. Exposição “Fernando Pacheco – Atelier em Movimento”

QUANDO. De hoje a 10 de junho (terça a sexta, das 10h às 21h; sábado, domingo e feriado, das 10h às 18h

ONDE. Casa Fiat de Cultura (praça da Liberdade, 10, Funcionários)

QUANTO. Entrada franca

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