Redes sociais são tratadas como elemento estético

iG Minas Gerais | Joyce Athiê |


Peça cria uma situação de reality show de um conflito de guerra
márcio meirelles
Peça cria uma situação de reality show de um conflito de guerra

Como um observador da sociedade, “O Campo de Batalha”, espetáculo que estreia amanhã em Belo Horizonte, no CCBB, pinça do real uma reflexão que ganha moldes estéticos e materializa o mundo da internet na temática e também na cenografia.

O “espetáculo debate”, estrutura dramatúrgica que marca o trabalho de Aldri Anunciação, põe uma lupa sobre as polaridades que se acirram no ambiente virtual. “Parece que a humanidade enlouqueceu, está perdida no meio do caos, o que por um lado pode ser interessante para gerar uma nova ordem porque essa bipolaridade já não cabe mais. Os movimentos sociais vêm mostrando que a configuração do mundo mudou, desde o núcleo familiar, e a gente ainda fica preso a uma lógica partidária e binária que não se serve mais. O momento é perigoso porque é no impasse, na dúvida, que surgem os monstros, as igrejas, a mídia, conduzindo as multidões a um retrocesso absurdo”, reflete Márcio Meirelles, diretor do espetáculo.

Como um trocadilho, Aldri diz que estamos sofrendo de sensibilidade social. “Nas redes, você expõe sua ideia e vai conseguir rastrear as pessoas que são contra e as que são a favor e perceber como sua mensagem é recebida. É como um tribunal de julgamento que pode ser muito cruel”, comenta o dramaturgo.

Referência temática, a internet materializa-se esteticamente no espetáculo. Como uma tela de computador com várias janelas abertas, o público assiste a imagens retratadas na mídia, narrativas pulverizadas e difundidas, ao mesmo tempo em que assistem, neste mesmo ambiente, ao encontro dos dois soldados, que está sendo transmitido ao vivo pela web. “Eles vão descobrindo aos poucos que estão sendo vistos e percebem que estão fazendo parte de um joguete. É quando tomam consciência desse todo maior que está escondido que eles vão tendo outro tipo de atitude e acabam se comportando de uma maneira diferenciada”, conta Aldri.

Para ele, a internet desconsidera as nuances do humano: o tom de voz, o olhar, o toque. “Essa tecnologia de comunicação é reducionista e isso é perigoso. Lazzo Matumbi, músico da Bahia, costuma dizer: ‘Minha pele é linguagem’, e não dá para desconsiderar isso. Nesse sentido, a internet é como um muro que a gente construiu para gente”, reflete.

Para dar conta dessas expressões que são apagadas no mundo virtual, já no texto, Aldri apontou para referências videográficas e sonoridades, que foram tratadas pelo diretor quase como personagens que tentam reforçar a dimensão do sensível.

Dando continuidade a um estudo antigo de Márcio Meirelles sobre o papel da música no teatro e a forma como ela se insere na dramaturgia, a sonorização do espetáculo, criada por Tato Taborda, torna-se invisível, segundo o diretor, criando sensações e ambientes, com poucos momentos de silêncio. “Todo som que está no espetáculo é música e funciona como uma regência, uma orquestração do espetáculo como todo, com os sons criados, das bombas, dos elementos da natureza, somados à voz dos atores e até o barulho do projetor”, conta.

Construídas por Rafael Gallo, projeções mapeadas criam os ambientes virtuais e reais. “A gente tem uma projeção complicada que parece simples, mas ela cria várias planos, com várias janelas, como uma referência ao uso da internet, mas também como o controle midiático das imagens que são reproduzidas para o mundo”, diz Márcio.

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