Um gesto de solidariedade neste vale de lágrimas

iG Minas Gerais |

Escrevo este artigo com alegria no coração. Nem tudo está perdido enquanto houver quem se preocupe, genuinamente, com o outro ser humano. Aqui, no Brasil, fervem as manchetes de política que amontoam notícias sobre petrolão, delações premiadas, votações que ferem direitos da maioria ou que adotam critérios absurdamente incompreensíveis para justificar este ou aquele posicionamento dos parlamentares. Misturam-se posições políticas sem eira nem beira. Da Europa, Oriente Médio ou Extremo Oriente, para não citar a humilhada África, também desses lugares não vêm boas novas. Ao contrário: a execução sumária de “infiéis” pelo Estado Islâmico; os barcos superlotados de refugiados que tentam alcançar a costa da Itália e que agora dirigem-se também para outros lugares, como a Malásia. A maioria é sumariamente devolvida a seus não lares, quando não se afogam no sem-número de naufrágios a que diuturnamente assistimos. Desemprego por toda parte. Países que saem, e países que tornam a entrar em crise econômica, política e/ou social. Na semana passada, mais uma barbárie em campo de futebol: esse adorável esporte transforma-se mais uma vez em palco de cenas de selvageria quando torcedores do Boca Juniors agridem com gás de pimenta os jogadores do River Plate. Que será do Cruzeiro, próximo adversário do River na Copa Libertadores?! Pois no meio disso tudo aparece uma flor. Um eletricista desempregado, em Brasília, desesperado com a fome rondando sua família e, em especial, o filho de 12 anos, rouba 2 kg de carne. A história dele é comovente. Mais um desses “paus de arara” que vêm para Brasília, passou por várias empresas e há um ano e três meses tem a mulher vitimada por um acidente. Tendo ficado muitos dias em coma, ela foi parar na casa de parentes que têm como dela cuidar. Mário Ferreira Lima acabou sozinho com o filho para criar. Tudo isso vem noticiado em detalhes no “Correio Braziliense” do dia 15 último. Na véspera acontecera o fato relatado. Preso, foi levado à delegacia e deveria pagar fiança. Mas como? Os policiais, penalizados, fizeram uma vaquinha, pagaram a fiança e ainda foram à casa dele para entregar um bom supermercado, que vai sustentá-lo e ao menino por certo tempo. Tenho uma história de vida marcada por medo de violência policial. Meu pai era juiz de direito, e, quando menina, presenciei-o protegendo acusados para que não fossem seviciados nas delegacias. Muito tempo depois, pude acompanhar o que foi feito com os presos políticos durante a ditadura. Pela imprensa, observo quase diariamente os casos que se multiplicam nas chamadas “unidades pacificadoras” no Rio de Janeiro. Nessas foi morto Amarildo, que virou símbolo da luta segundo a qual, para proteger as favelas de traficantes, a polícia acaba produzindo outra insegurança para aquelas populações de periferia. Agora vejo que, como em todo lugar, também na polícia há seres humanos. Tomara que eles se multipliquem país afora e se coloquem como alguém do povo, coisa que de fato são.

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