Mais louco é quem me diz e não é feliz

Seriado chega ao final em episódio satisfatório que reafirmou seus méritos

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Ego. Jornada existencial do protagonista Dick Whitman/Don Draper terminou em retiro espiritual hippie
amc / divulgação
Ego. Jornada existencial do protagonista Dick Whitman/Don Draper terminou em retiro espiritual hippie

“Mad Men” nunca foi uma série que fez questão de agradar os fãs ou atender seus desejos. Você esperava que algo fosse acontecer e... bem, quase sempre nada acontecia – era parte da graça.

Dito isso, seu último episódio (exibido nos EUA no domingo, e no dia seguinte no Brasil) foi surpreendentemente tudo que a maioria dos fãs desejava – e mais. Os personagens principais tiveram ao menos uma última cena uns com os outros – para se despedirem, e dos espectadores. Os arcos de cada um tiveram sua resolução. Don teve uma última grande ideia. Foi um final... feliz.

Bem, e daí vieram aqueles segundos finais. Aquela cena. Que deixou claro pela última vez porque o criador Matthew Weiner vai ser lembrado como um dos gênios da história da TV. O espectador ainda não tinha se recuperado do inesperado orgasmo dos últimos 50 minutos quando Weiner olhou bem nos olhos dele e disse:

“Viu? É isso que você queria. E é tudo mentira. Uma manipulação dos seus desejos e insatisfações para te fazer sentir bem e com vontade de comprar os produtos anunciados no intervalo”.

Pode parecer cínico, mas na verdade é uma declaração de amor aos grandes contadores de histórias. Aos grandes mentirosos. Porque nós precisamos disso – de ficção, mitos, arte. Sem a crença de que é possível inventar algo melhor que a realidade modorrenta do dia a dia – nem que seja mentira – seria bem difícil levantar da cama todo dia.

E é isso que Don Draper era. Uma grande e mentirosa invenção do que seria o homem, a vida, ideal. E o que “Mad Men” realizou, durante suas sete temporadas, foi o estudo do abismo existencial de um homem que não só convivia diariamente com essa mentira, mas a vendia profissionalmente.

E não por acaso, a última parada dessa jornada rumo ao centro da identidade norte-americana foi em uma comunidade hippie. Um movimento de redescoberta, que visava fazer o homem perdido nos delírios consumistas e hedonistas dos anos 1950 e 60 reencontrar seu verdadeiro “eu”.

É ali que Don Draper e seu criador Dick Whitman se reconciliam. E o último mergulho que o ator Jon Hamm faz nesse abismo é um atestado do comprometimento e da falta de vaidade com que ele abraçou um protagonista coerente, mas difícil. E que, especialmente nas duas últimas temporadas, reincidiu frustrantemente nos mesmos erros, tornando-se, talvez, o personagem menos empático da série.

“Mad Men”, porém, não era apenas Don Draper. E as cenas do último episódio entre Peggy (Elizabeth Moss) e Joan (Christina Hendricks) – ou Peggy e Pete (Vincent Kartheiser), ou Joan e Roger (John Slattery) – reafirmaram como o seriado de Weiner escrevia melhor que nenhum outro seus personagens. E como eles evoluíram.

Porque, ao contrário de “Breaking Bad” ou “Homeland”, a série nunca foi sobre sua trama. “Mad Men” sempre foi personagem e subtexto – pessoas presas em situações em que não podiam ser elas mesmas, então inventavam personas socialmente aceitáveis enquanto escondiam o que realmente sentiam nas entrelinhas.

Essas entrelinhas são o elemento mais difícil de se imprimir num roteiro. E a facilidade e a riqueza com que Weiner e seus parceiros fizeram isso é o que torna bastante improvável que alguma outra série atinja seu nível de excelência e profundidade psicológica no futuro próximo.

Em termos de ambientação, época, abordagem e design de produção, “Masters of Sex” é o consolo mais direto para os órfãos de “Mad Men”. Mas é como comparar Kubrick e David Fincher – o segundo ainda tem que comer muito arroz com feijão. Não que “Mad Men” tenha sido perfeito. Ele atingiu seu ápice criativo na quinta temporada, e as duas últimas se arrastaram um pouco – diferente de “Breaking Bad”, dividir esta última em dois anos enfraqueceu seu impacto.

Mas o segredo da série é que, quando ela acertava, era magistral. Em episódios como “The Wheel”, “The Suitcase,” “The Other Woman” ou o recente “Lost Horizon”, Weiner provou como uma mentira contada à perfeição é capaz de criar algo mais sublime que qualquer verdade. De nos fazer sentir algo que tornou dolorido saber que nunca mais veremos aqueles personagens. De querer mais. Como beber uma Coca-cola perfeitamente gelada.

Será agora?

Apesar de quatro vitórias como melhor série dramática, “Mad Men” nunca venceu um Emmy de atuação para seu elenco. Além disso, a série não ganha nenhum troféu na premiação desde 2011. Será sua última chance.

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