Filosofia entre um gole e outro

Cia. dos Aflitos estreia nesta quarta o espetáculo “Oié!”, que integra a programação do Arte no Centro, no Teatro Espanca!

iG Minas Gerais | Rafael Rocha |

Na mesa do bar. Os atores da Cia. dos Aflitos, que discutem filosofia pop na mesa do boteco
ethel braga/divulgação
Na mesa do bar. Os atores da Cia. dos Aflitos, que discutem filosofia pop na mesa do boteco

Muitos negócios já foram fechados na mesa do bar. Seja um grande contrato ou uma simples aposta, o pilequinho acaba aditivando a euforia dos não-abstêmios. Foi por esse caminho trôpego que os personagens do espetáculo “Oié!”, que pré-estreia nesta quarta no Teatro Espanca!, acabaram se conhecendo.

Quatro clientes que nunca se viram sentam em um boteco que eles chamam de bar dos desconhecidos. Ali, engatam uma sequência de temas durante uma noite inspirada. Futebol, homofobia, entretenimento, machismo. Tinha tudo para a prosa se tornar um papo-cabeça, mas a intenção dos atores da Cia. dos Aflitos, em fase de celebração de seus cinco anos de existência, é combater exatamente o hermetismo.

Partindo de uma pesquisa da atriz Fernanda Rodrigues sobre o diálogo das artes cênicas com o conceito de filosofia pop, o grupo resolveu levar o tema para o palco. Fernanda é graduada em filosofia e apresentou uma ação cênica durante o I Simpósio Internacional de Filosofia Pop, realizado na UNIRIO, no Rio de Janeiro. Esse esqueleto acabou rendendo ao grupo munição para a montagem do espetáculo, que iria estrear somente em agosto e foi antecipado para participar da ocupação cultural no Teatro Espanca!, chamada Arte no Centro.

Sob a direção de Odilon Esteves, convidado para essa empreitada, os atores tentam falar sobre como a filosofia é necessária na vida cotidiana, mas impossibilitada muitas vezes por um certa necessidade da academia de se fazer inteligível. “O exercício de pensar precisa ser cotidiano para que o indivíduo chegue a respostas que funcionem como motor para sua própria vida”, comenta o diretor.

Sem citar Márcia Tiburi, Alain de Botton ou nenhum desses filósofos célebres que aparecem em programas de televisão – “alguns funcionam como receita de bolo”, comenta Odilon” –, a dramaturgia vai tateando entre o discurso banal e o hermético, até provocar o espectador a refletir sobre o temo “filosofia de butiquim”, usado cotidianamente de uma forma pejorativa. “A filosofia pop quer somente exercitar o pensamento, mas não temos respostas”, comenta Odilon.

Se essa filosofia às vezes acaba se tornando uma arena frequentada apenas para iniciados, com o teatro nem sempre é diferente. Eis, portanto, a provocação um tanto metalinguística. “Quando o teatro insiste em acentuar somente questões de pesquisa ou técnicas, temos um teatro para artistas. O oposto disso é entretenimento, então é preciso achar um diálogo com o público, de forma que a experiência seja divertida. O riso não precisa ser condenável”, diz o diretor.

O cuidado do texto, construído coletivamente pelos atores, é não pasteurizar a provocação em torno do pensamento e muito menos condenar a erudição. Essa linha tênue entre fazer algo divertido sem cair no pântano das banalidades perpassa todo o espetáculo. “Mas os personagens não encontram respostas na filosofia”, completa.

Agenda

O QUÊ. Espetáculo “Oié!

QUANDO. Desta quarta a domingo, às 20h

ONDE. Teatro Espanca! (rua Aarão Reis, 542, centro)

QUANTO. R$ 5

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