Trabalho pode ter motivado a morte de jornalista no Jequitinhonha

Mulher de jornalista encontrado morto nessa segunda falou com a reportagem sobre o companheiro e sobre a última vez em que teve notícias dele

iG Minas Gerais | JULIANA BAETA |

Jornalista desapareceu no dia 13 de maio
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Jornalista desapareceu no dia 13 de maio

“Eu já vivi demais, o que eu viver daqui pra frente é lucro”. É assim que o jornalista Evany José Metzker, de 67 anos, costumava responder a mulher, quando ela pedia para que tomasse cuidado com o trabalho. Ele foi encontrado decapitado em Padre Paraíso, no Vale do Jequitinhonha, nessa segunda-feira (18). O corpo do jornalista foi sepultado na noite do mesmo dia, em Medina, cidade em que morava com a família.

Segundo a professora Ilma Chaves Silva Borges, de 51 anos, mulher de Metzeker nos últimos 11 anos, ele será lembrado sempre com um homem destemido e ousado, o que deve ter, inclusive, motivado a sua morte.

“Já tinha alguns dias que ele estava centralizando o trabalho ali naquela região. Ele estava hospedado em Padre Paraíso, e fazia reportagens sobre as cidades vizinhas. Ele mexia com investigações pesadas, fazia levantamentos sobre polícia, criminalidade, política, roubo de cargas, prostituição. Eu não sei exatamente qual era a matéria que ele estava fazendo quando foi assassinado porque ele não costumava comentar comigo sobre esses casos, mas acredito que o crime tenha sido motivado pelo trabalho dele”, conta.

Ela se lembra que a quarta-feira (13) foi a o último dia em que teve notícias do marido. “Durante a semana ele ficava lá em Padre Paraíso, como estava acontecendo há cerca de dois meses, mas nos fins de semana ele sempre ia pra casa, ficar com a gente. Era muito raro ele não passar o fim de semana com a família. Estávamos conversando pelo whatsapp neste dia, ele estava na pousada, e depois falou comigo que ia dar uma saidinha e voltava logo pra gente continuar conversando. Foi 19h03 a última mensagem que ele me mandou. Eu acredito que foi neste dia que ele foi assassinado”, diz.

Segundo Ilma, havia outro jornalista com ele na pousada, que também tem um blog jornalístico sobre a região do Jequitinhonha, mas não conseguiu contato com ele. No dia seguinte, ela mandou outra mensagem para o marido dando bom dia e não obteve resposta.

“Comecei a me preocupar, porque ele sempre respondia as mensagens, ele sempre falava comigo. Nós estávamos sempre conversando, mesmo que a distância. Liguei para a pousada depois de esperar o dia inteiro por uma ligação dele, e a menina que atendeu disse que ele havia viajado. Mas ele nunca fez nada sem avisar. No outro dia liguei de novo pra pousada e outra pessoa atendeu dizendo que ele havia viajado para Brasília dizendo que voltaria na segunda-feira, que seria ontem (18). Mas como? Ele iria passar o fim de semana com a gente, ele nunca fazia nada sem avisar. Comecei a ficar ainda mais preocupada”, lembra.

E foi na segunda-feira que ela recebeu a ligação informando sobre o encontro do corpo do jornalista, decapitado. “A gente sempre se apega a uma esperança né, ele poderia estar preparando uma surpresa, algo assim. Mas infelizmente não era isso. Olha, homem igual a ele não tinha. Ele era o pai das minhas filhas mesmo sem ser de sangue, ele assumiu como se fossem dele. Ele era presente, companheiro, amigo, era tudo pra gente. E ele era muito ousado em tudo o que fazia, ele não tinha medo, ele ia atrás das coisas, ele publicava e mostrava as provas. Eu sempre falava com ele pra parar de mexer com isso, que essa profissão é muito perigosa, mas não adiantava. Era o que ele gostava de fazer e ele era bom nisso. Ele era destemido”, recorda Ilma.

Metzker era responsável pelo blog “Coruja do Vale”, que noticiava assuntos de cunho policial e político, principalmente.

Segundo a Polícia Civil, as investigações continuam e são chefiadas pela delegada Fabrícia Nunes, que ainda não falará com a imprensa sobre o caso.

De acordo com a assessoria do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais, o órgão ainda não se posicionou sobre o ocorrido por que o presidente da entidade viajou para uma reunião para debater sobre violência contra jornalistas no Vale do Aço, mas informou que o sindicato irá se posicionar sobre o crime em breve.