Um grande festival brazuca

Saldo do festival goiano é positivo e mostra que é possível fazer grandes eventos musicais em cidades “fora do eixo”

iG Minas Gerais | Lucas Buzatti |

Rimas. Karol Conká transformou a esplanada do Centro Cultural Oscar Niemeyer em uma grande e vibrante pista de dança
Claudio Cologni
Rimas. Karol Conká transformou a esplanada do Centro Cultural Oscar Niemeyer em uma grande e vibrante pista de dança

Goiânia. A 17ª edição do Bananada continuou no sábado com o Camarones Orquestra Guitarrística (RN), que foi aplaudido em êxtase no Centro Cultural Oscar Niemeyer. Mas o rock da Carne Doce, de Goiânia, formada pelo casal Macloys Aquino e Salma Jô, não fez feio. Pulando e manipulando sintetizadores, a vocalista entoava falsetes afinados que hipnotizavam o público, que depois a recebeu literalmente de braços abertos, quando Salma pulou do palco. 

O número de espectadores tinha aumentado consideravelmente em relação ao dia anterior, e não demoramos a descobrir a razão: Karol Conká. Simpática e frenética, a curitibana destilou as rimas de seu “Batuk Freak” (2013) em cima de bases bem marcadas, transformando a esplanada numa gigantesca e animada pista de dança.

Capitaneado pelo gaúcho Alexandre Kumpinski, o Apanhador Só foi responsável pelo outro grande momento da noite. O grupo tocou músicas como “Líquido Preto”, “Não Se Precipite”, “Mordido” e “Nescafé”, pedida pelo público ao fim do divertido show. Kumpinski aproveitou para anunciar que a banda fará uma campanha de financiamento coletivo para gravar o terceiro disco, que contará com uma turnê intimista em salas de estar de fãs pelo Brasil – ideia semelhante à executada pelos mineiros do Constantina na turnê de “Pelicano”, em 2014.

O show do norte-americano King Tuff também animou o público. “Tem bandas assim aos montes na ‘gringa’, soa como apenas mais uma”, disse um camarada que assistia ao show ao meu lado. O companheiro de Sub Pop (emblemático selo de Seatlle) e fundador do Dinosaur Jr, J. Mascis, também fez uma apresentação morna, banquinho&violão, que esfriou o festival. Os mineiros do Câmera, que ainda neste mês toca no Primavera Sound, em Barcelona, foram outros a protagonizar um show frio, que pareceu não agradar o público.

Mas antes os problemas fossem a calmaria. Pior a tentativa de fazer um fim animado e “para cima”, com os chatérrimos Bonde do Rolê e Tropkillaz. Nem as “novinhas e novinhos” da cidade, que também procuravam por diversão e paquera, pareciam gostar da trilha sonora. Deixamos o local com o zunido causado pelo excesso de tramp – gênero extremamente limitado que, sozinho, sem um MC rimando, só se salva pelas vibrações gostosas que provoca no corpo quando estamos próximos aos amplificadores.

Domingo. No último dia, chegamos na hora do Garage Fuzz, banda paulista de hardcore que marcou a cena independente dos anos 90 – e que, talvez por isso, também ficou deslocada no festival. O line-up, que já havia contado com os elogiados shows dos chilenos do Magaly Fields e dos norte-americanos do Caddywhompus, seguiu com a banda baiana Vivendo do Ócio. O grupo animou o público – que não parava de crescer para assistir ao show de Criolo – com seu indie rock cru e criativo. Antes do rapper paulista, os goianos do Hellbenders entusiasmaram a horda de fãs, vestidos com camisas da banda, que batiam cabeça ao som de músicas do debut “Brand New Fear” (2013) e de seu sucessor, previsto para sair este ano.

O final apoteótico ficou por conta de Criolo, que fechou o festival com um show brilhante, com formação de banda. O repertório contou com quase todas músicas do novo disco, “Convoque Seu Buda”, do ano passado, com exceção de “Fio de Prumo (Padê Onã)” e “Plano de Voo”, e de releituras à la The Roots de canções de “Nó na Orelha” (2011), como “Subirusdoistiozin” e “Grajauex”.

Em 2015, o Bananada solidificou-se como um festival grande e diverso, tradicional e, ao mesmo tempo, inovador, preparado para fazer frente a grandes eventos como Loolapalooza e SWU. Com o benefício de ser bem mais acolhedor, barato e organizado, em todos os aspectos. Criado despretensiosamente para que a cidade tivesse uma opção de lazer alternativa à Pecuária de Goiânia, que acontece na mesma época, o festival deixa de ser, definitivamente, somente uma catapulta de bandas independentes, trazendo grandes atrações e promovendo uma verdadeira maratona musical. Para além dos deslizes do line-up, o saldo do Bananada é extremamente positivo e mostra que é possível fazer festivais de ponta em capitais “fora do eixo”.

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