Fim de noite sem Letterman

Apresentador se despede do “Late Show” nesta quarta-feira, atração que comandou por mais de 30 anos nos EUA

iG Minas Gerais | Dave Itzkoff |

Despedida. David Letterman prepara sua saída da TV
DAMON WINTER
Despedida. David Letterman prepara sua saída da TV

Nova York, Estados Unidos. Com um salto só, David Letterman deu a impressão de atravessar todo o palco do Teatro Ed Sullivan, saindo dos bastidores como se tivesse sido empurrado pela música tocada pelo líder da banda e companheiro de longa data, Paul Shaffer, sua Orquestra CBS e o vozeirão do locutor Alan Kalter gritando seu nome, “Daaaaay-vid Leh-terrrr-maaaaaaaan!”. Letterman, 68, cumpriu essa rotina inúmeras vezes – mas ela não se repetirá a partir de 20 de maio, quando apresentará o último episódio de “Late Show”, franquia da CBS que ele criou e apresenta desde 1993. Como o jogador veterano que vai ao campo de beisebol para praticar de vez em quando, ele estava aqui nessa tarde de abril em parte para treinar alguns quadros mais fáceis, mas principalmente para mostrar que está bem. Nenhum telespectador jamais o viu sair girando o microfone, colocá-lo no chão para segui-lo como se fosse um cachorro na coleira e se apoiar em uma das câmeras caras do estúdio; esse é um ritual que Letterman repete apenas para as pessoas na plateia do teatro. Ou, quem sabe, o faça apenas para si mesmo. “Tudo bem em casa? E no trabalho?”, pergunta ao público. Aplaudido, ele ri e acrescenta: “Vocês estão sentindo alguma carência emocional? Estamos todos estáveis?”. Como assim? Os fãs estão angustiados, pois sabem que Letterman vai fazer uma despedida emocionada, depois de mais de 33 anos no ar no fim de noite, superando até as três décadas de seu mentor, Johnny Carson. Após o último programa, ele vai para casa, para ficar com a mulher, Regina, e o filho de 11 anos, Harry, e tentar definir o que fazer a seguir. O segmento vai se sentir perdido com a saída de um dos apresentadores mais inovadores e imprevisíveis da TV norte-americana, que assumiu, em 1982, um horário modorrento na NBC, depois do “Tonight” de Carson, e o transformou em um verdadeiro desfile de Listas dos Dez Mais, Truques Idiotas de Animais de Estimação e uma década de quadros cômicos pioneiros.

Letterman deixa o horário com um cenário bem diferente daquele que ajudou a popularizar – e será substituído por Stephen Colbert, o espertalhão que manja tudo de política de “The Colbert Report”. Durante o aquecimento, um rapaz de Newberg, no Oregon, que estava na plateia perguntou a Letterman se ele tinha algum conselho para o pessoal da cidade que estava prestes a se formar, ao que o apresentador respondeu: “Tratar uma dama feito vagabunda e as vagabundas feito damas”. Depois de arrancar alguns risos com uma piada que não se parecia em nada com as que costuma fazer, acabou rindo consigo mesmo e disse: “Nem sei por que disse uma coisa dessas”. “E você liga?”, perguntou Shaffer. Por mais que tenha tentado disfarçar ao longo dos anos, a verdade é que Letterman liga, sim. Como disse mais tarde, sério, para o rapaz, “Se você fizer o bem às pessoas, vai sempre se sentir bem consigo mesmo”. Horas depois, do escritório do “Late Show”, no andar de cima, surgiu um Letterman pensativo para analisar tudo o que aprendeu na carreira. Coloquei aqui alguns trechos da nossa conversa. Agora que o último programa está se aproximando, você já começou a achar que é cedo demais para se aposentar?

Já, sim, ando bem melancólico. Estava conversando com meu filho no fim de semana e comentei: “Harry, fiz mais de 6.000 programas”. E ele respondeu (imita voz de criança): “Que medo”. E eu pensei: “Bom, de certa forma, ele não deixa de ter razão, é mesmo assustador”. Toda grande mudança na minha vida veio acompanhada de pavor: quando saí de Indiana para me mudar para a Califórnia; quando Regina e eu decidimos ter um filho – uma ansiedade só, morremos de aflição. Esses foram os dois acontecimentos mais importantes da minha vida e deram mais certo do que jamais poderia sonhar. Estou fingindo que a mesma coisa vai se repetir. Vou morrer de saudade. Das duas, uma: ou farei a transição graças a uma aceitação adulta da situação, ou vou partir para o crime.

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