Procura-se calopsita

iG Minas Gerais |

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Hélvio
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Sou um admirador de pássaros, mas soltos, como acontece na cidade de Fortuna de Minas, em que alcançou êxito uma campanha para que eles fossem retirados das gaiolas. Isso não diminuiu a presença deles na cidade, pelo contrário. São atraídos pela alimentação que os moradores colocam para as aves nos quintais e em outros locais. Assim, o lugar ganha diariamente uma frenética cantoria natural. Estou longe de ser como o personagem Edward Ostermann, do conto “O Provedor de Iniquidades Monk Eastman”, do livro “História Universal da Infâmia”, de Jorge Luis Borges. Ele narra que o protagonista, por volta de 1892, abriu, com o auxílio do pai, uma loja de pássaros. E o escritor argentino conta que “investigar a vida dos animais, observar suas pequenas decisões e sua inescrutável inocência, foi uma paixão que o acompanhou até o final”. Imagino que tamanha afeição deve mover também a pessoa que colou na parede da padaria uma folha impressa em computador com os dizeres: “Procura-se calopsita”. Além de telefones para que alguém que supostamente possa ter visto a ave faça contato, a folha em tamanho ofício, impressa em formato horizontal, traz reprodução de uma foto do animal de estimação, bem amarelo, com a devida crista, o topete que Neymar tornou moda, mas que para meus olhos de leigo não faria diferença se eu encontrasse um exemplar da mesma espécie. Estou enganado, diria o ornitólogo. Um dono conhece muito bem seu bichano, mesmo que seja uma ave muito semelhante a seus pares. No caso específico da calopsita, o ornitólogo me explicaria que o apego é ainda maior por suas características de docilidade, afabilidade e interatividade com o dono, desde que este lhe dedique a devida atenção. Pesquiso que, de origem australiana, a calopsita tem plumagem que varia de cor de acordo com as mutações e os machos conseguem falar ou cantar. Há algumas exceções em que fêmeas cantam. Vá saber então qual era a ligação desse dono com a calopsita que desapareceu. O que eles falavam e o que a ave cantava para seu dono ou dona. Só pensei nisso depois que fui à padaria e, na próxima vez, acho que vou olhar bem a foto amarela e anotar os telefones de contato, quem sabe eu não vejo uma calopsita parecida por aí e possa dar a boa notícia.

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