Evento na capital incentiva valorização de cabelos crespos

Tranças, turbantes e “black powers” marcam quarta edição da iniciativa

iG Minas Gerais | Lygia Calil |

Cidades -  Belo Horizonte - Minas Gerais
Encrespa BH, evento que estimula mulheres e homens a assumirem o cabelo crespo.
na foto: Patricia Santos e sua filha Carolina

Foto: Uarlen Valerio / O Tempo 20150517
Uarlen Valério
Cidades - Belo Horizonte - Minas Gerais Encrespa BH, evento que estimula mulheres e homens a assumirem o cabelo crespo. na foto: Patricia Santos e sua filha Carolina Foto: Uarlen Valerio / O Tempo 20150517

A aceitação do cabelo crespo é mais do que estética – é um ato político. Com essa premissa, o Encrespa Geral reuniu neste domingo homens, mulheres e crianças no UAI Shopping, no centro de Belo Horizonte. Realizado pela quarta vez na capital, o evento movimentou o local entre o fim da manhã e o início da tarde, com palestras e oficinas que incentivaram homens e mulheres a valorizarem os cabelos naturais e abandonar o alisamento.

Usar chapinha e métodos químicos para alisar os fios é abrir mão da identidade negra e de parte da cultura afro-brasileira – é se embranquecer, segundo o ator Denílson Tourinho disse na palestra “Cabelo e Identidade”. “Por motivos históricos e sociais, fomos convencidos de que nossos cabelos não eram bons. Muitos de nós estamos aprendendo apenas agora que não é assim. Devemos reconhecer nosso corpo e o valor étnico dos nossos traços, como uma reconstrução de nossa identidade negra”, disse à plateia que lotou a praça de alimentação e o mezanino no último andar.

Quem esteve no centro comercial observou uma enorme diversidade de estilos de tranças, turbantes e os chamados “black powers”. Não que seja fácil assumi-los, como explica a esteticista Isabela de Carvalho, 25, que hoje ostenta os cachos – que foram ornados com uma faixa colorida especialmente para a ocasião.

“Para a maioria de nós, que temos cabelo crespo, deixar os fios naturais é difícil. Dos 7 aos 23 anos, não saía de casa sem alisar o cabelo e enfrentei muito bullying na escola. Depois que aceitei os fios crespos, minha autoestima melhorou e percebi quem eu era de verdade”, afirmou.

mobilização. Já a estudante Nathália Nogueira, 26, conta que nunca quis alisar o cabelo, mas depois que aprendeu a lidar com os cachos, os fios não ficam mais presos, como sempre estavam antes. “O movimento de valorização (dos cabelos crespos) é bom, porque vivemos em um país muito preconceituoso. Mas usar o cabelo natural não pode ser só modismo. É uma questão de identidade étnica”, pontua.

Para quem acha que essa é uma questão puramente feminina, o torneiro mecânico Regis Vander, 38, diz que os homens também sofrem. “O socialmente aceitável é usar cabeça raspada, e só. Pense em um negro em uma entrevista de emprego. Se o cabelo estiver um pouco maior, ele é eliminado na hora. O que é isso, se não preconceito?”, questiona.

Garota de Divinópolis faz sucesso em BH Atração do Encrespa Geral, Carolina Monteiro, 8, foi abordada no evento diversas vezes por pessoas querendo tirar fotos com ela. De Divinópolis, no Centro-Oeste, ela faz sucesso na internet com os vídeos em que fala do próprio cabelo. “Ele não é duro. É lindo”, diz a menina, que mal conseguia andar entre a plateia.

Mãe de Carolina, a empresária Patrícia Santos, 36, deu palestra no evento sobre auto-estima infantil. “Hoje minha filha sabe se defender dos ataques. Eu sofria muito quando criança porque não sabia”.

A valorização da cultura afro na família de Carolina foi reforçada há dois anos, quando a garota relatou em casa que colegas de escola falavam mal do cabelo dela. “Faço muitas fotos da Carol, para que ela possa se reconhecer”, diz a mãe.

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