Vítimas se unem para pedir mais rigor em diagnóstico

Aumento da coagulação do sangue eleva risco de trombose e de outras complicações

iG Minas Gerais | Luciene Câmara |

Dor. Um dia antes da data marcada para a cesariana de seu primeiro bebê, Letícia Murta soube que ele estava morto
Mariela Guimarães
Dor. Um dia antes da data marcada para a cesariana de seu primeiro bebê, Letícia Murta soube que ele estava morto

Um dia antes da data marcada para a cesariana de seu primeiro bebê, a jornalista e blogueira Letícia Murta, 35, acordou e percebeu que, diferentemente dos dias anteriores, Francisco não se mexia. Ela foi ao médico, e o diagnóstico não poderia ser pior: o coração do seu filho, gerado nove meses antes, não batia mais. Como explicar a morte repentina em uma gravidez até então tranquila e acompanhada por médico?

Letícia poderia acreditar na antiga “desculpa” de sufocamento pelo cordão umbilical ou aceitar que “Deus sabe o que faz”, como alguns disseram a ela. Mas, após muito investigar, descobriu que ela e o bebê tinham sido vítimas da trombofilia, condição que aumenta a coagulação do sangue e oferece risco de trombose, entre outras complicações.

Estudo feito neste ano no Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo (SP) revelou que, das 150 mulheres que tiveram problemas como aborto, morte do bebê e pré-eclâmpsia na gestação, 60% tinham alguma forma de trombofilia. O problema é que a maioria só descobre a tendência quando já perdeu um ou mais filhos na gravidez – nessa fase o sangue fica naturalmente mais coagulado, o que aumenta as chances de entupimento de veias e artérias quando há predisposição.

Em Belo Horizonte, algumas mulheres que passaram pela situação usam redes sociais para alertar sobre a necessidade de dar mais atenção à doença. O exame para diagnosticar a trombofilia não é obrigatório na gestação, só quando a mulher teve trombose, embolia pulmonar ou acidente vascular cerebral. Mesmo quando há complicação ou morte, a investigação da doença não é exigida – só se torna regra após o terceiro óbito intrauterino.

“Se a mãe teve aborto, tem que ser investigado, e a mulher precisa de pré-natal especial na gestação seguinte. Muitos colegas ainda desconhecem a trombofilia. Os que não têm estrutura para o diagnóstico devem encaminhar casos para onde tenha”, diz a ginecologista e obstetra Venina Barros, coordenadora do setor de trombose e trombofilia do HC de São Paulo.

Para especialistas, a investigação sobre a doença deveria começar na primeira consulta com obstetra e ginecologista, com perguntas sobre histórico familiar da paciente – como a trombofilia pode ser hereditária, ter parentes de primeiro grau com trombose ou gravidez com complicações devem ser sinal de alerta. “As trombofilias hereditárias atingem uma em cada dez mulheres. Pode ter consequências graves. O mínimo que deve ser feito é questionar o paciente. Mas, infelizmente, só se descobre após uma isquemia”, afirmou o geneticista Ciro Martinhago, diretor da Chromosome Medicina Genômica.

No caso de Letícia, se o médico tivesse pedido exames como ultrassom com doppler (que analisa o fluxo sanguíneo), ela poderia ter descoberto o problema antes da morte do filho. “Médicos têm que ser mais atentos. A missão deles é trazer vida, e eles não podem trazer o peso da morte”, diz ela.

Ativistas

Veja alguns blogs e grupos criados por mulheres que já passaram pela trombofilia para orientar o público e evitar que outras pessoas passem pela doença:

Blog. Letícia Murta oferece dicas no blog www.eucurtosermae.com.br, para as mães e orientações sobre a trombofilia.

Facebook. O grupo Trombofilia, no Facebook, reúne mais de 3.800 membros, inclusive mulheres que tiveram perda gestacional em decorrência da doença. Para entrar, é preciso ter afinidade com o tema e autorização das moderadoras.

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