A memória sob ameaça

Edifícios tombados apresentam situações precárias de infraestrutura e má conservação

iG Minas Gerais | Joyce Athiê |

Plástico.Secretário de Estado de Cultura, Angelo Oswaldo, mostra mau estado de conservação da hemeroteca da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa
JOAO GODINHO / O TEMPO
Plástico.Secretário de Estado de Cultura, Angelo Oswaldo, mostra mau estado de conservação da hemeroteca da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa

Paredes mofadas, instalações elétricas em más condições, colunas perfuradas e infiltrações convivem com importantes acervos que contam a história de Minas Gerais. Dos 12 edifícios em funcionamento no Circuito Cultural Praça da Liberdade, quatro apresentam necessidades emergenciais de intervenção, segundo o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais – Iepha, novo órgão gestor do Circuito. Inaugurado em 2010, o Circuito é composto por equipamentos culturais geridos pelo poder público e outros pela iniciativa privada. Segundo o secretário de Estado de Cultura, Angelo Oswaldo, os edifícios entregues às empresas privadas alcançaram bons resultados e estão em pleno funcionamento, enquanto os prédios, sob responsabilidade do Estado, sofrem com a falta de investimentos. A convite do secretário, o Magazine circulou pelos edifícios do Circuito, acompanhado também pela presidente do Iepha, Michele Arroyo, que apontou detalhes da precariedade de algumas instalações. Entre as situações mais graves, estão os edifícios do Museu Mineiro, Arquivo Público Mineiro e Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa. Ana Werneck, diretora de Ações Museais da Superintendência de Museus e Artes Visuais, órgão que congrega o Museu Mineiro, explica que uma das salas principais da instituição está fechada. “A obra foi iniciada em 2013, quando o forro foi removido durante o processo de restauro, mas foi interrompida em novembro”, diz Ana. Ela explica que a sala abrigava a Pinacoteca do Museu, com quadros que datam do início da fundação de Belo Horizonte até os dias de hoje. Além do forro, Ana ressalta a necessidade de reparos elétricos no local. No Arquivo Público, a situação não é melhor. Apesar da reforma da cobertura ter sido concluída, a alvenaria está danificada por infiltrações que partem também do solo. “A nossa grande preocupação é a questão do bem tombado, o próprio prédio tem que ser cuidado pelo governo. O acervo está ameaçado porque está em um ambiente de muita umidade”, afirma Vilma Moreira dos Santos, superintendente do Arquivo Público. No acervo, estão cerca de 2.000 metros de documentos históricos que remontam ao início do século XIX, contando a história do Brasil Colônia, Império e República. “Tudo já está digitalizado, mas o original é um tesouro e esse é um acervo que não se repõe, ele é único”, conta Vilma. A Biblioteca Luiz de Bessa, o equipamento mais visitado do Circuito, recebendo cerca de 25 mil pessoas por mês, também passa por situações precárias em diversos níveis. “Além do que diz respeito à arquitetura do edifício, que também é tombado, temos questões de baixo quadro funcional que vem diminuindo desde 2008, problemas de segurança, além do acervo da hemeroteca que tem infiltrações nas colunas e no teto”, afirma o superintendente de Bibliotecas Públicas e Suplemento Literário, Lucas Guimaraens. Fonte para pesquisadores, o acervo da hemeroteca tem periódicos e revistas antigos, como o jornal “Universal”, de 1825, o mais antigo de Minas Gerais, que era publicado em Ouro Preto. Dívidas a pagar. Segundo o secretário de Cultura, a interrupção das obras nos vários edifícios do Circuito Cultural Praça da Liberdade se deu por falta de pagamento, restando uma dívida do governo da ordem de R$ 4,3 milhões com as empresas licitadas para as intervenções de manutenção e restauro. “Eu não tenho interesse em polemizar com as administrações anteriores. Quem quiser, pode vir aqui com seu celular e mostrar a realidade como ela é”, afirma Angelo Oswaldo. Ele conta ainda que a continuidade das obras será prioridade da nova gestão do Circuito. Em entrevista por e-mail, a ex-secretária de Cultura, Eliane Parreiras, explica que “as obras em questão contavam com recurso de financiamento do Banco do Brasil, cujos repasses foram retidos em 2014, obrigando a paralisação momentânea de algumas obras”. O atual secretário de Cultura diz que a informação não procede. Sobre o Arquivo Público, Eliane afirma que a segunda etapa das obras estava incluída nos recursos previstos e que ocorreria em 2015. Ela conta que foi realizado convênio entre Secretaria de Estado de Cultura e a MGI (empresa do Estado que coordenava as obras na época) no valor de R$ 3,3 milhões para essas correções. A ex-secretária ressalta que o convênio se encontra em execução, cabendo à nova gestão dar continuidade a ele. NOVOS USOS Além das intervenções emergenciais, as novas obras envolverão também adaptação a novos usos dos edifícios. Prédio Verde – antiga Secretaria de Viação e Obras Pública Irá abrigar o Iepha, alterando a proposta de transformá-lo em espaço de ensaios de grupos artísticos, o que demandaria grandes intervenções no edifício para aumentar o tamanho das salas. A decisão foi tomada a fim de manter a integridade arquitetônica do prédio de 1897. Palacete Dantas e Solar Narbona Os planos para implantação do Oi Futuro Palacete Dantas e Solar Narbona foram cancelados. Para a instalação do centro cultural, seriam necessárias alterações na infraestrutura, o que resultaria na descaracterização dos edifícios. Palácio da Liberdade O prédio, que está fechado, receberá uma área de acolhimento para visitantes e novos roteiros de visitação, para evitar grande volume de pessoas. Rainha da Sucata Fechado desde agosto de 2014, o edifício terá suas obras retomadas no segundo semestre e será o novo receptivo do Circuito.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave