Uma leoa na pele de menina

Na série dominical de perfis de mulheres rappers de BH, Clara Lima, 15. a primeira campeã da Liga Feminina de MCs

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Timidez. Em seu quarto, Clara Lima passa boa parte do tempo escrevendo e compondo no
violão. Em seu caderno pessoal, guarda uma música inédita para o pai e outras confissões
Mariela Guimarães
Timidez. Em seu quarto, Clara Lima passa boa parte do tempo escrevendo e compondo no violão. Em seu caderno pessoal, guarda uma música inédita para o pai e outras confissões

Os olhos baixos, a fala mansa e pacientemente distribuída em frases curtas fazem de Clara Lima uma adolescente assumidamente tímida. De moletom e short, na sala de estar de seu apartamento simples, onde ela mora com os pais e o irmão, no Conjunto Ribeiro de Abreu, Zona Norte de Belo Horizonte, ela pede um minuto para trocar de roupa. Nesse meio tempo, a fotógrafa Mariela Guimarães, preocupada com a estética do retrato, diz que Clara não parece rapper. “Podem chegar no meu quarto, é melhor para a gente conversar”, diz Clara. Mas justamente quando entramos em seu quarto, começamos a perceber como Clara Lima tem se firmado, dia a dia, como uma força feminina aniquiladora de discursos machistas e estereótipos prontos do hip hop, colecionando prêmios em batalhas freestyle e o título de primeira campeã da Liga Feminina de MCs de Belo Horizonte. Em um pequeno espaço de quatro por dois metros quadrados, Clara Lima nos recebe vestindo uma camiseta da “Poesia Marginal”, exibindo uma série de prêmios que ganhou por batalhas freestyle na cidade, todos espalhados em cima de sua cama de solteiro, que compõe a mobília de seu quarto ao lado de um guarda-roupas – e nada mais. Camisas, CDs de rap, adesivos e quadros são suas conquistas em rolês como Rima na Rua, Good Vibes Hip Hop e Real Gapricho. “Na minha primeira batalha, eu não consegui nem almoçar no dia – de tão nervosa que eu fiquei. Eu nunca tinha nem falado ao microfone, imagina cantar? Ainda sou bem tímida com tudo isso”, diz a MC. Nascida e criada na periferia belo-horizontina, entre os bairros Monte Azul e Ribeirão de Abreu, Clara Lima é filha de mãe esteticista e pai policial. No bairro onde mora, ela tem duas linhas de ônibus para leva-la aos extremos de Belo Horizonte, onde os movimentos de hip hop acontecem: seja no Viaduto Santa Tereza ou no Barreiro. “É foda. Um dia, para voltar da Favelinha (centro cultural na Vila Novo São Lucas), eu cheguei quase 1h. Minha mãe não gosta, reclama pra caramba quando durmo fora. Mas não deixo de ir”, diz a jovem. Antes de entrar para o universo hip hop, entretanto, a MC até tentou praticar o evangelho na igreja Sara Nossa Terra, por incentivo dos pais, dedilhando o violão que aprendeu sozinha aos 13 anos. “Eu fui pegando por conta, lendo revistinhas, meu irmão toca e me deu dicas também. Tocava MPB mesmo, mas não aguentei a igreja. O lance é que minha mãe canta na igreja, meu pai toca guitarra, teclado e violão lá, e meus tios de São Paulo são músicos também, de sertanejo e pagode. Eu encontrei no rap uma forma de continuar a música da minha família, só que do meu jeito”, diz a MC. Nessa vontade instintiva, Clara Lima só despertou para o hip hop ano passado, quando começou a frequentar o Duelo de MCs e a Batalha da Estação. “Lá na Estação eu comecei a rimar de zoeira com um amigo, no meio do evento mesmo. Aí uma menina me ouviu, perguntou se eu já tinha me inscrito na Liga de MCs, pegou meu contato e me ligou depois”, conta a adolescente. De uma simples brincadeira, Clara Lima passou a ser considerada promessa do rap. Venceu a eliminatória mineira da Liga Feminina de MCs, no Espaço Comum Luiz Estrela, em 2014, e aprendeu a colocar o machismo no chinelo. “No freestyle a gente tem a chance de quebrar o cara. O que não podemos fazer quando somos cantadas na rua”, dispara. Daí para começar a escrever os próprios versos e frequentar a cena do rap, foi um pulo. “Eu confesso que tenho dificuldade para escrever. Não sei pegar um tema e fazer uma letra assim. Eu gosto de estudar o assunto, mergulhar, viver. E o hip hop me permite viver”, diz. Quando pronuncia a palavra viver, quase mordendo o ímpeto de ganhar a vida entre os dentes, o brilho de querer mudar o mundo por conta, sem lenço nem documento, paira entre os olhos e um meio sorriso que a MC deixa transparecer involuntariamente pela primeira vez. Mas a vergonha dessa adolescente encabulada parece ser abraçada pelo hip hop toda vez que ela faz referência às duas palavrinhas que cercam seu universo diariamente. “O hip hop me aceita do jeito que eu sou”, diz a MC, passando a mão na metade de seu cabelo raspado e deixando à mostra as três tatuagens: no braço direito, um trecho de uma de suas letras: “Dentro do meu corpo meu espírito dança”; no braço esquerdo, o número “13”, que remete aos loucos do rap; na região do tórax, a frase “Rumo Certo” toma seu peitoral, envolta por um desenho estilizado. Entre lemas de vida colhidos literalmente na rua, Clara Lima só pensa em viver de música. Até hoje, se mantém em batalhas de freestyle, mas gravou duas canções: “Sonho de Criança” e “Infância” – onde coloca seu olhar pueril sobre o cotidiano de forma dissidente do padrão violência, pobreza e mazelas sociais inerentes ao rap. “Hoje tem muita gente falando de amor, com canções mais românticas, como o disco ‘Azul’, do Kdu dos Anjos. Eu não me considero romântica, mas acho que o rap está aí para falar de coisas boas também”, diz. Em uma parede inteira de seu quarto, Clara Lima demonstra essa juventude otimista nos rabiscos, desenhos e mensagens anotadas a lápis, deixando o grafite cinza preencher a neutralidade da tinta branca – assim como o pixo muda a perfeição estética de marcas publicitárias e de muros sem vida. “A Musa Liberta”, “#TodosSomos” e um “HIP HOP” em caixa alta gritam vontades espontâneas. Quando é questionada sobre seu maior sonho, a MC revela com uma sinceridade ingênua. “Não penso em faculdade ainda, mas se fizer, quero produzir música, respirar música. Eu quero viver de música para poder levar a minha mãe a um lugar melhor”. Antes de terminar, Clara Lima se rende ao segundo sorriso espontâneo dessa entrevista, e completa com uma gargalhada. “Sonho meu mesmo, na real, é ter uma casa com piscina”.

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