Batalha feminina

Muitas mulheres lutam para deixar de ser figurantes na história do hip hop mineiro desde os anos 90

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

 Gerações distintas do hip hop feminino
LINCON ZARBIETTI
Gerações distintas do hip hop feminino

“Desde quando entrei para o hip hop ouço frases como: ‘é você mesma que escreve suas letras?’, ‘grafiteira não dá conta de pegar no pesado, só sabe fazer desenho de florzinha’ ou ‘não dá pra ser b-girl, as meninas não têm força para rodar no chão’”. Essa pequena amostra de humilhações listadas por Áurea Carolina, de 31 anos, MC aposentada – como se define – e hoje secretária de Políticas Para as Mulheres de Minas Gerais, podem parecer coisa do passado. Ledo engano! Esses exemplos traçam uma realidade atemporal enfrentada por mulheres para serem reconhecidas pelo próprio protagonismo no hip hop. O início dessa batalha está cravado em 1990, quando o rap se popularizou com os Racionais MCs, mas se mantém até os dias atuais. Hoje, em pleno 2015, se Bárbara Sweet se tornou ícone feminino por aniquilar ofensas machistas em várias batalhas freestyle de rap em Belo Horizonte, é por um histórico de 25 anos de lutas, que o Super Notícia começa a contar hoje, em uma série de matérias. Histórico A cena hip hop em todo o país se funde com as influências dos bailes de funk e da black music a partir de 1980. Tudo influenciado pelo sound systems, da Jamaica, no início dos anos 50. Mas no Brasil foi de fato com os Racionais MCs que o hip hop começou a se estruturar, chegando ao formato pop de seus quatro elementos: b-girl ou b-boy, DJ, MC e grafite. Dentro desse cenário, enquanto homens se articulavam em grupos importantes, as mulheres eram empurradas para segundo plano. “Os homens tinham uma postura totalmente diferente com a mulher. Críticas pesadas, ofensas. Vinha de um tempo em que a namorada tinha que ‘respeitar’ o MC, a mulher era tida como acompanhante no hip hop e condicionada a backing vocals”, diz Vanessa Beco, de 39 anos, fundadora dos grupos Negras Ativas e Atitude de Mulher. A DJ Helenice Pereira Lele, uma das primeiras mulheres a dominar pick-ups na cidade, enfrentou resistência para colocar som nos anos 90, seja no vão das escadarias do Edifício Palomar, no centro da capital, ou em Contagem, próximo à Igreja da Matriz – antigos redutos do rap na capital. Apesar disso, na mesma proporção em que a mulher foi forçada à condição de figurante no hip hop, também buscou ter seu protagonismo estampado. Entre 1998 e 2005, dezenas de grupos femininos nasceram na cidade, como Fator R, Sobreviventes Aliados, Apologia X, Revolucionárias do Rap, o Clã e Constraste. A MC, cantora e compositora Paula Ituassu, de 29, foi pioneira dos grupos mistos de rap, integrando o Fator R ao lado dos MCs Leo Black e Clodô d’Lui, além de iniciar as batalhas freestyle ao lado de Bárbara Sweet com o projeto H2Grrils. “Causamos impacto subindo ao palco. Muitas vezes, eu tive que agachar no palco e rimar olhando para um cara da plateia para dizer: ‘eu estou falando com você’”, diz Paula.

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