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iG Minas Gerais | Marcus Celestino |

“Um Piano Atrás da Porta”, que integra exposição de Fernando Pacheco, na Casa Fiat
NINA PACHECO/DIVULGAÇÃO
“Um Piano Atrás da Porta”, que integra exposição de Fernando Pacheco, na Casa Fiat

O nome “Atelier em Movimento” dá a exata dimensão do que Fernando Pacheco propõe com a mostra que ocupa a Casa Fiat de Cultura a partir do dia 21 (quinta). Uma instalação, 23 pinturas e três vídeos (de autoria de Fernando Batista, da Noir Filmes) compõem a exposição, que fecha mais um ciclo da carreira do “artista das cores”, mineiro de São João del Rei. 

As obras de Pacheco, notórias pelo estilo que evoca a fantasia, os sonhos e extrai o que há de presente na alma humana, foram recentemente expostas na Ásia e Oceania (Nova Zelândia, Tai-wan, China e Japão), onde recebeu críticas positivas.   O artista plástico crê que, com a exposição em Belo Horizonte, fecha um ciclo, “retornando com sua arte para o seu país”. “Saio daqui (do Brasil), dou um giro, volto e faço essa exposição. Ela fecha um ciclo não só da trajetória, mas também estético”, frisa Pacheco.   Ademais, ele acredita que deixou algo, um ensinamento, em águas internacionais. “Nesses 40 anos de carreira, pude sair de Belo Horizonte e ir para o mundo. Isso me fez perceber que levo comigo meu atelier a todos os lugares. Deixei lá (na Ásia e na Oceania) um pouco da linguagem que venho construindo aqui ao longo desse mais de meio década de carreira no ramo da arte e produção”, salienta.   Ele acrescenta também que trouxe consigo influências importantes, mas que certamente não serão evidenciadas em sua arte em detrimento de sua estética única. “Retorno com alguma coisa de lá, influências no bom sentido da linguagem do Oriente, como a economia de traços, ideogramas e caligrafia japonesa”, destaca ele.   Improvisação As pinturas de Pacheco contam com uma palheta de cores que não se baseia apenas em alguns tons, variações. Isso se dá graças ao seu processo de aprendizado, no qual o autodidata tinha de se virar com o que tinha. “Eu pintava o dia inteiro quando jovem. Usava as tintas e ia improvisando com as cores que sobravam por não ter dinheiro para comprar mais material. Assim, fui desenvolvendo uma técnica, um estilo muito pessoal, estranho, diferente”, conta.   Tal característica, por exemplo, é perceptível em sua vivaz série “Pianistas”, que surgiu de uma ida a um show de Ray Charles. São obras (“No Meio de Tudo, um Olhar Diferente”, “No Meio de Tudo, um Azul”, “Sol Japonês”, “Executar de Cor”. “Piano pra tocar Desenho” e “Um Piano Atrás da Porta”) que chamam a atenção.    “Não quero representar na minha pintura um pianista tocando, seria simplista demais. Minha pintura é focada no interior humano, numa interpretação do Ray Charles que fui. Vi que a imagem dele era mais forte que a música. Olhei pr’aquilo: ele cego, podendo estar vendo coisas mais importantes que eu estou vendo”, sublinha. “Nosso olhar é raso e o olhar de olhos fechados é o da imaginação. Você pode imaginar o que quiser através da fantasia”, filosofa.   Imprensa A ligação entre a obra literalmente fantástica de Pacheco – algo como uma brincadeira de um menino, puramenteg divertida e emocional – também se dá com a imprensa. Em 2013, Pacheco desenvolveu obras remetendo à história oficial desta mídia em Belo Horizonte. “Pude ali falar um pouco de pessoas da cena cultural mineira e isso foi muito bacana. (Carlos) Drummond (de Andrade) foi funcionário da imprensa oficial; Juscelino Kubitschek também (trabalhou na Imprensa Oficial, como clínico do posto médico). Nesse caso, o meu pianista virou o jornalista, o escritor, o poeta”, diz.   O artista plástico também foi responsável pela capa da edição de número mil do Pampulha, que consistia em vários olhos e uma alusão ao numeral.    “Sou leitor do Pampulha desde que ele apareceu. A ideia da capa foi de fazer uma tradução humana do jornal. Ele é observado por tantos olhos. Será que você ficaria tão apavorado quanto ele? Por isso, optei por devolver esse olhar”, comenta.   Atelier em Movimento, de Fernando Pacheco Casa Fiat de Cultura (Praça da Liberdade, 10, Funcionários, 3289-8900). Terça a sexta, das 10h às 21h. Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h. Entrada franca. Até 10/6

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