O lado bom da vida

Estreia - Dirigida pela filha, veterana Nicette Bruno traz seu primeiro monólogo a BH

iG Minas Gerais | Giselle Ferreira |

Memória - O espetáculo faz homenagem a Paulo Goulart, companheiro de Nicette por 60 anos, falecido no ano passado
Lenise Pinheiro/Divulgação
Memória - O espetáculo faz homenagem a Paulo Goulart, companheiro de Nicette por 60 anos, falecido no ano passado

Após a voz em off de Paulo Goulart pedir delicadamente que os presentes desliguem os celulares, Nicette Bruno, 82, sobe sozinha ao palco para provar que existe vida após a perda. Casados por 60 anos, os atores foram separados em março do ano passado por um câncer, mas quem ouve as palavras de alegria, esperança e otimismo que Nicette recita no solilóquio “Perdas e Ganhos” logo vê que eles seguem juntos no amor, na arte, na vida e na morte. O espetáculo faz curtíssima temporada no Teatro Bradesco nos dias 22 (sexta) e 23 (sábado). 

Foi a filha do meio do casal, Beth Goulart, quem vislumbrou a mãe narrando as confissões, impressões e voltas por cima da gaúcha Lya Luft, autora do livro homônimo em que a peça se baseia. Há cinco anos, logo após o fim da temporada de “Simplesmente Eu, Clarice Lispector” – que rendeu a Beth o prêmio Shell de melhor atriz de 2009 – ela quis prosseguir com o projeto de encenar escritoras brasileiras e o texto de Lya lhe pareceu perfeito. Nicette gostou da ideia, e Paulo, desde o princípio, deu apoio.    O agravamento da doença do pai pôs o plano em espera por algum tempo, mas depois de sua morte em março do ano passado, nenhuma homenagem a ele pareceu mais adequada. Foi no teatro que Nicette e Paulo se conheceram em 1952, e foi também no palco que eles se casaram, dois anos mais tarde. Seus três filhos, Beth, Bárbara e Paulo, seguiram na profissão dos pais, e Paulo, por fim, foi velado no Theatro Municipal de São Paulo. “Agora é também no palco que compartilho esse momento da minha vida com o público”, conta Nicette, que garante também estar tirando lições com o texto e aprendendo a lidar com o luto a cada apresentação.   “Foi tudo muito difícil – quase impossível – inicialmente. Aos poucos, a Beth foi me ajudando a dominar aquela emoção pra realizar o trabalho. E ele tem sido uma ajuda muito grande no entendimento, compreensão e superação da minha perda”, explica a atriz, que sente a identificação de muitas pessoas com a reflexão sobre afetos, autoestima, superação e capacidade de seguir adiante que a peça propõe. “Muita gente assiste e diz que se sente recompensada de ouvir a experiência daquelas mulheres. No fim, a peça é um olhar alongado da vida, é uma conclusão de que ela nos tece perdas, mas nos proporciona aprendizados”, diz.   Três exemplos As personagens a quem a atriz se refere são três mulheres retiradas por Beth do livro de Lya e representam uma mãe que perde o filho, uma dona de casa que passa pela vida sem tomar decisões próprias e outra que foi traída. No fim, cada uma delas encontra, a seu modo (ou como Lispector), o delicado da vida. Reflexões de “O Silêncio dos Amantes”, também escrito por Lya, são costurados aos trechos de “Perdas e Ganhos” e eis aí o tom que marca a peça: Nicette expressa sentimentos e ideias como se estivesse de frente para um espelho, falando para si. Manobra de Beth, que dirige a mãe pela primeira vez, para aproveitar o melhor recurso dramatúrgico de que dispunha: a experiência de 67 anos de atuação.   De pé, de salto alto, num cenário simples e sóbrio, Nicette se deixou guiar e obedeceu, de bom grado, a tudo o que Beth sugeriu. “Beth é uma diretora firme e sabe tudo o que quer. Ela soube, principalmente, transmitir para mim como ela desejava e imaginava as cenas. Como atriz, me senti segura, e como mãe, fiquei muito orgulhosa”, afirma Nicette, que com o espetáculo faz sua estreia no formato monólogo.    Projeções ilustram a dramaturgia e Nicette assina três das canções que compõem a trilha sonora. Uma delas foi escrita para Paulo há quase seis décadas. “Ele mesmo pediu à Beth que incluísse essa música. Ele gostava muito e sempre pedia pra eu tocar o piano. Minha vida não permitiu que eu continuasse estudando música – o teatro me roubou muito. Mas a canção é do início do nosso casamento. Depois, a cada filho que vinha, eu fazia uma musiquinha”, brinca.    Recomeços Até pelo telefone dá para notar o entusiasmo da atriz em seguir atuando. Questionada sobre o que ainda falta realizar na carreira, Nicette soa como uma iniciante, pronta para aceitar qualquer desafio. “Sempre restarão coisas a fazer. A vida é um eterno aprendizado e eu sempre me surpreendo a cada trabalho. Quando recebo um personagem, recomeço do zero para descobrir sua essência. A experiência conta, mas eu preciso sempre me despir para me entregar livremente. É bonito isso, na nossa profissão, viver um pouco em cada individualidade. Possibilita uma reformulação de nós mesmos e nos torna melhores”, reflete a atriz, que está em “I Love Paraisópolis”, novela que estreou na TV Globo na última segunda.    Na pele de Izabelita, matriarca riquíssima e levemente caduca, Nicette adianta que seu percurso na novela será tragicômico. “É uma vida sofrida, mas nem o Alzheimer tira dela o humor”, diz, como quem também sempre vê o lado bom da vida.   Perdas e Ganhos Com Nicette Bruno Teatro Bradesco – Centro Cultural Minas Tênis Clube (r. da Bahia, 2.244, Lourdes, 3516-1360). Sexta (22), às 21h, e sábado (23), às 19h. R$ 80 (inteira).

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