Ações de conscientização e enfrentamento do racismo

Semana foi marcada por uma programação variada, que incluiu apresentações artísticas, debates e sessão de filmes; caminhada marca encerramento amanhã (16)

iG Minas Gerais |

Na última quarta-feira (13), foi celebrada a Abolição da Escravatura. Assinada em 1888 pela Princesa Isabel, a Lei Áurea colocou fim às explorações dos negros, mas mais de cem anos depois, o racismo ainda é recorrente no Brasil, e a desigualdade racial se faz presente nos mais diversos âmbitos – sociais, culturais, econômicos e até religiosos. No entanto, alguns grupos e entidades vêm se mobilizando, há décadas, para combater tais práticas.    Nesta semana, em Contagem, diversas ações estão sendo desenvolvidas como forma de disseminar a diversidade racial e possibilitar discussões relacionadas a questões étnico-raciais tanto nas unidades de ensino quanto na sociedade em geral. A VII Semana de Enfrentamento e Combate ao Racismo trouxe uma programação variada incluindo apresentações artísticas e culturais, debates, sessão de filmes e atos públicos de conscientização contra o racismo.   Na manhã de hoje (15), cerca de 200 estudantes adolescentes participaram de uma sessão de filme comentada, no auditório da Escola Municipal Heitor Vilas Lobos, no bairro Inconfidentes. Já o encerramento do evento acontece neste sábado (16) e será marcado pela Marcha de Enfrentamento e Combate ao Racismo. Organizado pelo Sociedade Cultural e Religiosa de Minas Gerais (SCRMG), em parceria com as secretarias de Educação e de Direitos Humanos e Cidadania, a concentração do evento acontecerá a partir das 8h, na praça Paulo Pinheiro Chagas, no Novo Eldorado, de onde segue em direção à praça do Iria Diniz, no bairro Eldorado. A caminhada deve contar com a presença de estudantes da Rede Municipal de Ensino de Contagem e da Fundação do Ensino de Contagem (Funec), além de representantes de vários movimentos da sociedade civil.   ]Festividades “Tava dormindo, sinhaninha me chamo: ‘Acorda, negro! Cativeiro já acabou”. O cântico entoado pelo grupo teatral Filhos de Zambi marcou a tradicional Festa da Abolição, realizada pela Comunidade Quilombola dos Arturos, nos últimos sábado (9) e domingo (10). A encenação rememora o 127º aniversário da Lei Áurea. As guardas da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e Congado dos Arturos foram as anfitriãs das outras guardas visitantes que vieram de várias cidades do Estado e também de Contagem.   A Festa da Abolição atrai centenas de visitantes a Contagem todos os anos, e um dos ápices da comemoração é a encenação do grupo dos Arturos. Vestidos como escravos, homens chegam acorrentados, uns carregando facões e açoites, outros enxadas. As mulheres levam as crianças de colo e cestos de frutas. Eles dançam, jogam capoeira, cantam, homenageando a alegria inerente de seu povo, ao mesmo tempo em que, enquanto trabalham pesado, pintados com manchas de sangue pelo corpo, são presos ao tronco e levam chibatadas, marcando o período sofrido da escravidão.   A libertação ocorre com muito canto e danças animadas, mas a encenação dos escravos também traz a reflexão de como vão viver a partir daquele momento, já que eles não possuíam nada, nem sequer o que comer ou onde dormir, além da senzala, muito menos dinheiro. Após a apresentação teatral, todos caminham para dentro da greja de Nossa Senhora do Rosário onde assistem à Missa Conga e pedem a benção da santa.   Presente na festa, o secretário- adjunto de Direitos Humanos e Cidadania, Érico Nogueira, ressaltou que esse é um momento especial de reflexão sobre a dívida social e histórica com o povo negro e a própria resistência deles. “Nosso país foi construído pela força do povo negro, e o que eles sofreram com a escravidão não há nada que pague. É importante sempre reforçar a necessidade da construção de políticas públicas para a população negra, de combate ao racismo, garantia de direitos, e de preservação da cultura e manifestação religiosa. Quero parabenizar os Arturos por manterem viva a tradição do povo negro”.   A aposentada Maria Agenora da Costa saiu da capital mineira para acompanhar a festa pela primeira vez. Devota de Nossa Senhora do Rosário, pediu ao filho que a levasse como presente de Dia das Mães. “Estou encantada com a festa, com a missa, nunca imaginei quão rica seria essa experiência, tanto como para a reflexão como para a fé”, enfatizou.   A moradora do bairro Jardim Industrial, Simone Patrícia, participa desde criança do congado de seu bairro. Sua mãe foi rainha do congado e a levou para participar. Agora, ela leva a própria filha, Isabela. Todos os anos, as três participam da Festa da Abolição e da Festa de Nossa Senhora do Rosário, realizada no mês de outubro. “É muito gratificante manter a tradição ensinada pela minha mãe, e por isso fazemos questão de participar das comemorações dos Arturos, afinal, eles fazem isso muito bem e nos servem de exemplo”, afirmou.   Entidade ressalta importância do resgate da cultura afro Em entrevista ao O TEMPO Contagem, representantes da Sociedade Cultural e Religiosa de Minas Gerais (SCRMG) – um dos órgãos responsáveis pela organização da Marcha de Enfrentamento e Combate ao Racismo – disseram que cerca de 1.000 pessoas são esperadas no evento.    Segundo a SCRMG, o movimento existe em Contagem há muito tempo, mas nos últimos 10 anos as ações estão sendo fortalecidas. “Tivemos ações importantes e políticas públicas desenvolvidas, mais precisamente, nos últimos dois anos. Como a criação do Conselho de Promoção de Igualdade Racial, a lei de cota de 20% para negros e negras, o feriado municipal de 20 de novembro, a pactuação do plano juventude viva e a criação do fórum permanente do de igualdade racial, para implementação de Plano Municipal de Promoção de Igualdade Racial”.   A entidade também pontuou que é preciso conscientizar à sociedade quanto à importância da raça negra e de sua cultura na formação do povo brasileiro e da cultura do país. “Conhecer melhor sobre os afrodescendentes que fogem ao estigma da escravidão mais do que saciar curiosidades, nos ensina que, desde cedo, esses brasileiros impuseram, com sua existência, o fato de que a cor jamais os condenou à inferioridade intelectual”, afirma.   Além disso, o SCRMG ressalta que, apesar do ambiente que sempre foi desfavorável aos negros, eles alcançaram admiração e respeito assim como muitos outros que lutaram pela conquista de seu espaço. No entanto, a Sociedade pondera que, no Brasil, não existe uma conscientização de que o país é uma nação multicultural e pluriétnica. “Precisamos concentrar esforços para ampliar o olhar para além do negro escravo e reconhecer o valor daqueles afrodescendentes em segmentos como a literatura, a música, as artes cênicas, as artes plásticas, as ciências, a medicina, o jornalismo, a diplomacia, a guerra, a política, a religião”, reflete. “É o conhecimento da história real que ainda precisamos resgatar. Há dezenas de personalidades, passagens históricas e obras relacionadas à cultura afrodescendente que, se conhecidas, mudarão a perspectiva que temos sobre o povo brasileiro e que foram construídas com explícita parcialidade e má fé pela historiografia oficial, finaliza. 

 

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave