Euzébia Alcântara Dias dos Anjos

iG Minas Gerais |

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Pelo que me conta, Euzébia teve uma vida muito feliz até pouco antes de completar 60 anos, quando, por motivos que não explicou direito, foi morar sozinha no edifício JK. A partir daí, a pessoa bem disposta e brincalhona que era deu lugar a uma senhora cada vez mais ensimesmada e carrancuda. Disso fiquei sabendo através das investigações que empreendemos acerca de sua vida. Do alto de seus 82 anos, Euzébia já não é de muita conversa e o pouco que diz a respeito de si não raro roça o delírio. Em algumas das visitas que fiz a sua kitchenette, ela se mostrou vivaz, noutras, completamente apática, com o olhar perdido no nada. Quando estava disposta à conversa, me contava da animação constante na casa em que morava com a irmã, Eulália, e o irmão, Antônio José, no bairro Sagrada Família. Euzébia nunca se casou e até antes de se mudar para o JK, morou com Eulália, também solteira. Antônio José havia sumido no mundo alguns anos antes. Nos dias em que estava lúcida e falante, Euzébia se recordava do clima festivo e de camaradagem sincera que sempre coloriu seu lar, seja o da infância, em Pirapora, seja o da vida adulta, no Sagrada Família, onde, em períodos distintos, moraram por um determinado tempo outros parentes, como um sobrinho que tinha vindo do interior para estudar. Essa, aliás, é uma mancha de tristeza no quadro de felicidade que ela pinta durante nossas entrevistas – as que foram bem-sucedidas, naturalmente. Esse sobrinho, sobre o qual me falou umas duas ou três vezes, sumiu e até hoje não se sabe do paradeiro dele. “Estávamos passeando no Jardim Zoológico, nos distraímos e, quando fomos nos dar conta, ele já não estava mais conosco. Na época, a polícia trabalhou principalmente com a hipótese de sequestro, apesar de nós nunca termos recebido qualquer pedido de resgate ou coisa que o valha. O fato é que o garoto sumiu. Até hoje a família não sabe se está vivo, se está morto, enfim, até hoje ninguém sabe o que aconteceu. Você pode imaginar o abalo que isso causou em todos nós, esse episódio que insiste em perdurar como uma chaga aberta”, ela me dizia certa vez. Mas nem sempre, como já falei, foi possível estabelecer um diálogo razoável com Euzébia. Quando estava macambúzia, simplesmente não respondia às minhas perguntas, ou o fazia de forma lacônia, e tampouco se dispunha a qualquer comentário acerca do que fosse. Acontecia de ela estar tagarela em algumas ocasiões, mas aí eram discursos em que a falta de lucidez e a evidente senilidade se impunham. Euzébia dava de cismar com uma espécie de motim engendrado pelos aparelhos eletrônicos de sua casa. Afeita ao rádio de pilha, à televisão de válvula, à máquina de costura e ao ferro de passar roupa aquecido com carvão em brasa, ela acreditava e me dizia, entre ressabiada e alerta, que os eletrodomésticos tinham se desenvolvido de uma tal maneira que começavam a adquirir vontade própria e conspiravam para dominar o mundo. “A geladeira tem agido de forma estranha, vejo nela luzes que acendem e apagam sozinhas. Também não confio muito nesse aparelho de televisão, sinto que ele está me observando o tempo todo, tramando contra mim”, costumava dizer, envolvendo nesse enredo também a sanduicheira e o liquidificador. Apesar da recorrente dificuldade de interlocução, foi possível apurar um pouco da personalidade de Euzébia: uma pessoa modesta, que se basta com pouco, supersticiosa num grau elevado e bastante saudosista. São traços, talvez, comuns à velhice, mas particularmente notáveis na vasta solidão em que Euzébia vive. Crônica originalmente publicada no dia 17/5/2013. O colunista está de férias.

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