Não é pelos vinte mil réis

Em “Ópera do Malandro”, João Falcão encena texto de Chico Buarque e faz paralelo com manifestações de 2013

iG Minas Gerais | RAFAEL ROCHA |

Novos talentos. A trupe da companhia Barca dos Corações Partidos
[CREDITO]gabriela rocha/divulgação
Novos talentos. A trupe da companhia Barca dos Corações Partidos

Enquanto as ruas ferviam durante as manifestações na véspera da Copa do Mundo de 2014 e uma parte de ativistas bradava “Não vai ter Copa”, João Falcão e um grupo de jovens atores passavam horas a fio em ensaios intermináveis. Havia uma sintonia entre o que se passava dentro e fora do teatro. Os que rebelavam e os que atuavam falavam a mesma língua.

Sem participar de protesto algum, o diretor pernambucano estava envolvido até o pescoço no assunto. Junto da companhia Barca dos Corações Partidos, João preparava o elenco para o musical “Ópera do Malandro”, clássico brasileiro escrito por Chico Buarque quase 40 anos atrás. Após uma elogiada estreia no ano passado, o espetáculo cumpre temporada no Grande Teatro do Sesc Palladium, de hoje a domingo.

Durante os três meses de ensaios, a trupe de 14 atores percebeu que queria recontar algo que já estava latente na boca do povo: a crítica do poder a qualquer custo. “O clima estava bem quente no Brasil e nem acreditávamos que estava acontecendo a mesma coisa no palco e nas ruas”, relembra João. O espanto deve-se à atemporalidade do texto do compositor, montado pela primeira vez em julho de 1978. Na trama de viés questionador e político, o contrabandista Max Overseas se casa às escondidas com a filha de Duran, seu poderoso inimigo que é chefe de bordéis e cabarés. O cenário original é a Lapa nos meados da década de 40.

Duran é um empresário do ramo sexual movido a interesses escusos. Enquanto ganha dinheiro explorando prostitutas, planeja para sua filha Teresinha um futuro de prestígio e glamour. O destino o golpeia quando sua filha se casa com Max, um bandido charmoso de compostura tão questionável quanto seu futuro sogro. Apesar de se odiarem, há mais coisas que os une, principalmente a relação promíscua e corrupta de ambos com os policiais que dão as caras constantemente pela Lapa. Para eles, o dinheiro é quase uma religião. “Essa coisa da ganância pela grana corromper as pessoas casou bem com o momento. Mas confesso que não imaginava como o texto de Chico é tão atual”, reflete o diretor.

No segundo ato, “A Ópera do Malandro” chega mais próxima da crítica social e política, que surpreendeu diretor e elenco com a atualidade. Enquanto as manifestações em 2013 afirmavam que o motivo da revolta não eram os 20 centavos, no espetáculo há uma cena de paralelo imediato. Duran, vivido pelo ator Ricca Barros, oferece a cada prostituta 20 mil réis para que elas participem de uma manifestação contra a polícia. O coro dos revoltados acaba tomando proporções incalculáveis, e o jogo acaba virando. As prostitutas entendem que precisam questionar também a exploração por qual passam, e exibem cartazes dizendo que não estão ali pelos 20 mil réis. “As pessoas acham que eu que inseri atualizações no texto, mas não foi. Parece que estamos ouvindo o noticiário”, diz.

Elenco. Assim como fez em “Gonzagão – A Lenda”, o último espetáculo de João Falcão que também faz temporada na cidade (leia na página 2), o diretor escolheu atores novatos, descobertos por ele em suas pesquisas. Oito deles são remanescentes do espetáculo anterior. Sambista atuante na Lapa, Moyses Marques acabou indo muito bem nos ensaios e ganhou nada menos que o papel de Max, o principal da peça. “Vi uns vídeos com performances do Moyses e intui que ele fosse um bom ator”, explica o diretor. Melhor não questionar, já que essa tal intuição costuma não errar. Foi João quem descobriu atores de destaque, entre eles uma trinca matadora composta por Wagner Moura, Lázaro Ramos e Vladimir Brichta. “Tenho isso de observar o ator. Tem gente que trabalhou a vida toda com teatro e não consegue algo que uma criança consegue. Talento é algo nato. Estudar ajuda, mas isso não implica em nada”, completa.

Outra curiosidade da montagem é ter a imensa maioria de homens no elenco. Eles se dividem entre personagens masculinos e femininos, e tiveram que aprender a se equilibrar no salto alto. Larissa Luz, a única mulher em cena e outra aposta recente de João Falcão (ela também trabalhava somente como cantora), ajudou os rapazes a se travestirem. “Eles me pediam dicas durante esse processo de construção do feminino”, diz Larissa. “A intenção não é ser realista. Não queríamos fazer imitação de mulher. Muito menos ficar algo caricato. Eu quis mesmo remeter ao teatro popular, onde homens fazendo papeis femininos é algo natural”, explica João.

Agenda

O quê. Espetáculo “Ópera do Malandro”

Quando. Hoje e amanhã, às 21h; domingo, às 20h

Onde. Grande Teatro do Sesc Palladium (rua Rio de Janeiro, 1.046, centro)

Quanto. R$ 50 a R$ 70

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