Agentes fazem 'vaquinha' para libertar pai que furtou para filho comer

Eletricista foi preso em flagrante ao furtar 2kg de carne. Com a repercussão do caso na mídia, ele já recebeu propostas de emprego que podem melhorar sua situação

iG Minas Gerais | Raquel Sodré |

Após ter sido preso em flagrante por furtar 2 kg de carne para alimentar o filho, e ter sua fiança paga pelos próprios policiais da 20ª DP do Distrito Federal, parece que a vida do eletricista Mario Ferreira Lima está para mudar. Com a repercussão que seu caso teve na mídia, ele já recebeu propostas de emprego, que podem tirá-lo da situação em que ele se encontra.

“Eu já recebi ligação de umas três pessoas oferecendo trabalho para ele”, conta à reportagem de O TEMPO, o agente da Polícia Civil Ricardo Machado, um dos que se comoveram com a história de Lima.

O eletricista foi preso em flagrante na tarde da terça-feira (12). Contando com o dinheiro recebido pelo Bolsa Família, ele foi ao supermercado comprar pão, queijo, mortadela e carne. Mas o benefício ainda não havia caído em seu cartão, e o saldo era insuficiente. Lima, então, tentou esconder a carne e levá-la sem pagar, mas foi flagrado pelo sistema de câmeras do supermercado. O dono do estabelecimento acionou a polícia, que levou Lima até a delegacia. “Quando ele foi informado que seria preso em flagrante, ele começou a passar mal. A pressão dele baixou, ele suava gelado. Nós estamos acostumados a ver gente fingindo passar mal na delegacia e percebemos que, no caso dele, era verdade”, conta o agente Machado.

Questionado, o eletricista disse que não se alimentava direito havia dois dias, além de estar preocupado com o filho, que chegaria da escola e ficaria sozinho em casa. Lima contou também que mora sozinho com o filho, pois sua esposa se recupera, na casa de um filho mais velho, de um acidente que a deixou em coma por oito meses. Devido aos cuidados com a mulher e com o filho nos meses em que ela ficou no hospital, ele foi demitido do emprego. Agora, conta somente com o dinheiro do Bolsa Família para sustentar a si e ao filho adolescente. “Ao olhar para ele, vemos que não tem mesmo se alimentado direito. É um homem bem magrinho. Você vê que ele está se privando pelo filho, pois o menino está muito bem cuidado, alimentado, limpo, corado”, comenta Machado, ressaltando a dedicação de Lima.

Toda a história comoveu os policiais que estavam na delegacia. Além de terem pagado um lanche para Lima, uma agente pagou a fiança de R$ 270 estabelecida pelo delegado, e os demais agentes fizeram uma vaquinha para fazer compras de alimentos e materiais de higiene para o eletricista e o filho.

“Fomos à casa dele ver se a história era verdade. Quando chegamos, vimos que na casa não havia sal, gás, nenhum alimento. Ele não tinha pasta de dentes”, admira-se o agente de polícia. Machado, que entrou para a corporação há nove meses, sempre sonhou em servir à sociedade na polícia. Mas jamais imaginou ser protagonista de uma história como essa. “Acho que nunca mais vai acontecer isso de novo. Mas dormi ontem com um alívio incrível”, diz.

Crime Pena. O furto é um crime previsto no Artigo 155 do Código Penal. A pena é de um a quatro anos de prisão e multa. Se o réu for primário, o juiz pode substituir a prisão por detenção ou só multa.

"Anjos de Deus"

“Ele (o eletricista) é tão humilde que me falou: ‘Esta foi a forma que Deus arrumou para que eu encontrasse vocês. Se não fosse isso, eu não teria encontrado vocês e não teria o que comer. Vocês são os anjos que Deus colocou no meu caminho.’” - Ricardo Machado, Agente policial

Consequências

Furto é crime, mesmo se for para comer

Furtar, mesmo que para comer, é crime previsto por lei, e pode resultar em cadeia para o criminoso. Assim, o agente policial Ricardo Machado faz questão de frisar que a história do eletricista Mario Ferreira Lima não pode servir de exemplo.

“Diante de uma situação criminosa que chega em uma delegacia, o delegado não tem outra alternativa senão cumprir a lei. Se ele não cumprir, quem estará cometendo o crime é ele, de prevaricação”, esclarece o agente. Mesmo tendo sido ajudado pelos policiais, que pagaram sua fiança, o eletricista ainda deverá responder a um processo pelo crime cometido – e poderá ser preso por isso.

“Nós deixamos isso bem claro, para que essa história não sirva de incentivo para pessoas que estiverem em dificuldade. Não adianta furtar algum alimento e ir se apresentar na delegacia. Ela vai responder criminalmente”, adverte o policial. (RS)  

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