Farmacêuticas querem remédio que permita glúten a celíacos

Parte das pessoas que sofrem com a doença nunca foi diagnosticada

iG Minas Gerais | Andrew Pollack |

Pesquisas. 
Diferentes laboratórios buscam solução para quem não pode consumir a proteína
AARON WOJACK
Pesquisas. Diferentes laboratórios buscam solução para quem não pode consumir a proteína

Nova York, EUA. Como muitas pessoas com sensibilidade ao glúten, Kristen Sweet, 29, evita essa proteína, que pode deixá-la doente. Mas, quando come na casa de amigos ou em restaurantes, não tem como saber com certeza se a comida não contém nenhum traço de glúten.

“Esse risco existe toda vez que você sai e coloca sua saúde nas mãos de outras pessoas”, explica Kristen, que tem um problema relacionado ao glúten conhecido como “doença celíaca”. “Quando fico doente, eu me enrolo feito uma bola por dias e não há nada que se possa fazer. Não existe remédio”.

Agora, no entanto, as empresas farmacêuticas estão correndo para desenvolver os primeiros remédios para a doença celíaca, que os pesquisadores afirmam ser muito mais comum do que se imaginava.

Nenhum medicamento chegará ao mercado até pelo menos 2018, mas alguns deles se mostraram promissores em pequenos testes clínicos e podem, em breve, avançar para os estágios finais das pesquisas. Com isso em mente, a Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA, na sigla em inglês) organizou recentemente um encontro público para discutir algo que ainda não havia sido pensado antes: como medir o efeito dos remédios contra doenças celíacas em testes clínicos.

A maioria desses medicamentos não eliminaria a necessidade de uma dieta sem glúten, mas ajudaria a aliviar os sintomas quando há alguma quantidade de glúten na comida.

Eles estão sendo pesquisados, na maioria, por pequenas empresas, apesar de algumas companhias farmacêuticas maiores também demonstrarem interesse no assunto. A AbbVie pagou US$ 70 milhões pela chance de adquirir os direitos globais de um medicamento que está sendo desenvolvido pela Alvine Pharmaceuticals. A GlaxoSmithKline e a Avalon Ventures, uma empresa de capital de risco, criaram uma nova companhia, a Sitari Pharmaceuticals, que pesquisa tratamentos para celíacos.

Descrença. Descobrir se um remédio para doença celíaca funciona ou não pode ser difícil, já que a doença afeta as pessoas de maneiras diferentes. Além disso, não há uma correlação clara entre os sintomas e os prejuízos para o intestino. O ideal seria um medicamento que acabasse com os sintomas e curasse os problemas do intestino ao mesmo tempo em que prevenisse complicações de longo prazo, como perda óssea.

Outra questão debatida no recente encontro da FDA é sobre quem teria acesso aos remédios. Se um medicamento chegar ao mercado, especialmente se o preço for alto, as seguradoras podem limitar o uso às pessoas com diagnósticos definitivos, que são obtidos apenas quando se faz uma endoscopia do intestino e uma biópsia.

“Espero que seja necessário um diagnóstico de doença celíaca, e não apenas uma sensibilidade ao glúten”, afirma Sheila E. Crowe, gastroenterologista da Universidade da Califórnia, em San Diego.

Doença era desconsiderada Nova York. O desenvolvimento de remédios está atrasado, dizem os especialistas, em parte porque a doença era vista como uma condição rara que acometia crianças. Nos últimos 15 anos, no entanto, estudos mostraram 3 milhões de norte-americanos, entre adultos e crianças, têm a doença. Mas a maioria deles não obteve um diagnóstico, normalmente porque os sintomas – que incluem dores abdominais, inchaço, diarreia, dores de cabeça e problemas cognitivos – podem ter muitas outras causas. E nem toda sensibilidade ao glúten está relacionada à doença celíaca. Acredita-se hoje que a doença celíaca seja autoimune, condição em que o sistema imunológico do corpo ataca seu próprio tecido, nesse caso o revestimento do intestino delgado, pelo qual os nutrientes são absorvidos. Nas pessoas que têm suscetibilidade genética, o ataque é disparado pelo glúten, uma proteína presente no trigo, na cevada e no centeio, boa para a culinária, mas que não é rapidamente digerida. “É a primeira doença autoimune para a qual o antígeno foi identificado”, afirma o doutor Francisco Leon, cofundador da Celimmune, uma companhia nova que está desenvolvendo um remédio para a doença celíaca. Ele diz que a enfermidade pode servir de modelo para empresas que procuram produtos para outras doenças autoimunes, porque é mais fácil conseguir uma leitura rápida do efeito dos remédios se as pessoas comerem glúten.

Como funcionam os produtos que são desenvolvidos Alvine. O remédio da empresa consiste de duas enzimas que devem quebrar o glúten antes que a proteína chegue ao intestino delgado e cause a reação. O medicamento é um pó para ser dissolvido na água e tomado antes das refeições. BioLineRx. A empresa israelense está fazendo testes iniciais com um polímero que se liga a uma parte importante do glúten, impedindo que seja absorvido pelo intestino delgado. Alba Therapeutics. A empresa privada de Baltimore experimenta uma substância, o acetato de lazarotide, que supostamente impede que o glúten se esprema entre as células do revestimento do intestino delgado e cause a inflamação. ImmusanT. A empresa espera acabar com a necessidade de uma dieta sem glúten. Ela acredita que injetar nos doentes, por várias semanas, partes do glúten que causam a reação imune induzirá a uma tolerância ao glúten, uma estratégia parecida com o que é feito com alergias.

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