Alforria à arte negra

Afro - Espetáculos, lançamentos e debates compõem 3ª edição da Mostra Benjamin de Oliveira

iG Minas Gerais | Giselle Ferreira |

Espetáculo “Madame Satã”, dirigido por João das Neves, volta ao cartaz na mostra
letícia souza/divulgação
Espetáculo “Madame Satã”, dirigido por João das Neves, volta ao cartaz na mostra

De acordo com os dicionários de nomes próprios, Benjamin significa “filho da felicidade”. Não foi por acaso, então, que Benjamin de Oliveira (1879-1954) fugiu da casa onde morava com os pais, em Pará de Minas, aos 12 anos, para se tornar o primeiro palhaço negro do Brasil e criar o gênero circo-teatro. Tampouco é por casualidade que a mostra de arte negra que leva o nome do artista promova a abertura de sua terceira edição no próximo 13 de maio – dia em que serão comemorados 127 anos da abolição da escravatura.

Idealizada pela Cia. Burlantins, a mostra Benjamin de Oliveira ocupa o Oi Futuro Klauss Vianna com lançamentos, debates, performances e espetáculos de teatro e dança. Dentre as mais de 150 propostas recebidas, a curadoria formada por Grace Passô, Maurício Tizumba e Alexandre de Sena afunilou a lista para sete.   “A arte negra está sempre na periferia da obra artística. Ela carece de lugares para acolher esses trabalhos, carece de verba. A mostra fomenta a luta por espaços de representatividade. São sete, mas queríamos que fossem muito mais”, afirma Alexandre, explicando que a busca por ligações entre tradicional e contemporâneo guia esta edição. Em comum as atrações também resguardam gritos de liberdade: alforria estética, política e poética.    A peça “(Entre)”, do Coletivo Negro (SP), inspirada em Itamar Assumpção e Eduardo Coutinho, soma-se às belo-horizontinas “Sapiências” e “TransBordas”, da Laia Cia de Danças Urbanas, “Madame Satã”, do Grupo dos Dez, “Feito de Som e Fúria”, do Breaking no Asfalto, e à dança-performance “Maravalhas”, do contagense Benjamin Abras.   Esta última será criada coletivamente por meio de uma oficina e deve contemplar misturas entre linguagens que abordem a capoeira de angola e os orixás. “Quero ver como a minha proposta é interpretada em outros corpos”, conta Abras, que assinava Benjamin de Oliveira – seu nome de batismo – até conhecer a história do palhaço.   A abertura e o destaque da mostra ficam por conta da estreia de “Co Ês”, terceira parte da trilogia de Rui Moreira sobre a cultura afro. O solo fecha o ciclo com uma dança que discute a fé, o gesto e o autoconhecimento. “É uma busca e um reencontro comigo, uma aventura poética. Ali o público é meu espelho e meu parceiro e nós conversamos sobre alguns assuntos – dentre eles está o fenômeno do genocídio da juventude negra”, explica o bailarino.   Fim de era Com a previsão de que o Teatro Klauss Vianna encerre suas atividades no dia 30 de junho, a mostra, que aconteceu ali nas duas edições anteriores, pode ser um dos últimos eventos sediados na sala. Ex-aluno de Klauss Vianna, Rui comenta sobre o fechamento do espaço. “A maior resistência que nós artistas podemos fazer pra mostrar o valor, a necessidade e a função de um espaço cultural como esse na cidade é ocupá-lo. Seguimos muito carentes de espaços culturais e esperamos que haja sensibilidade, que a mostra possa provar a importância do Teatro Klauss Vianna – que convenientemente leva o nome do guerreiro, do homem que lutou por tantas causas no Brasil, especialmente as ligadas à dança”, conclui.   PROGRAMA-SE Co ÊS / Rui Moreira Quarta (13) e quinta (14), às 20h.   (Entre) / Coletivo Negro Sexta (15), às 20h.   Sapiência e TransBordas / Laia Cia. de Danças Urbanas Sábado (16), às 20h.   Conversa: Coletivo Negro  Sábado (16), às 14h.   Madame Satã / Grupo dos Dez Quarta (20), às 20h.   Conversa: Cidinha da Silva sobre o livro “Africanidades e relações raciais” Quinta (21), às 19h30.   Lançamento do livro “Percursos do Sagrado: Irmandades do Rosário de Belo Horizonte e entorno” Sexta (22), às 20h.   Maravalhas Sábado (23), às 19h.   Feito de Som e Fúria / Breaking no Asfalto Sábado (23), às 20h.   3ª Mostra Benjamin de Oliveira  Teatro Oi Futuro Klauss Vianna (av. Afonso Pena, 4.001, Mangabeiras, 3229-2979). De quarta (13) a 24/5. Entrada gratuita.  

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