Responsabilização de culpados vai aliviar dor de familiar

Pai e irmão das vítimas esperam punição aos responsáveis pela queda

iG Minas Gerais | Bárbara Ferreira |

Juarez, pai de Charlys, preocupa-se com a ex-mulher, que não tem apoio psicológico
douglas magno
Juarez, pai de Charlys, preocupa-se com a ex-mulher, que não tem apoio psicológico

Acordar pela manhã, organizar o ônibus da família* e seguir viagem é a rotina do motorista Tiago Carlos dos Santos, 28. O veículo é uma tradição de família que ele presencia desde muito novo, quando já acompanhava os percursos do pai, também motorista. Mas a vida de Tiago sofreu um revés, e o que antes era um orgulho se transformou em obrigação, e dolorosa. Essa é a sensação que ele tem todos os dias, ao embarcar no suplementar 70 e passar pelos viadutos da avenida Pedro I. Foi ali que, há dez meses, ele perdeu a irmã Hanna Cristina Santos, 25, que dirigia um ônibus da mesma linha quando foi atingida pela queda do viaduto Batalha dos Guararapes, cujo inquérito de conclusão do caso deverá ser entregue nesta segunda pela Polícia Civil. Saber lidar com a perda é algo esperado de todo ser humano – mas sabe-se que não é fácil, simples ou corriqueiro. Em situações como a queda do viaduto, que matou duas pessoas e deixou outras 23 feridas em julho do ano passado, o conforto está alinhado à sensação de que justiça foi feita, segundo as próprias famílias. Para elas, inclusive, essa é a única possibilidade de seguir em frente. “Até hoje, enquanto faço o percurso do suplementar, passo pelos lugares onde eu a encontrava e parece que a vejo vir correndo em direção ao ônibus. A ficha ainda não caiu. Queremos saber quem são os culpados. Não por questões financeiras, mas porque eles precisam ser responsabilizados”, afirma o irmão de Hanna. Segundo ele, passar pela avenida Pedro I e usar ou dirigir o ônibus é algo que seus pais nunca mais fizeram. “Nunca ouvi dizer que viaduto cai. E aconteceu. Passo aqui e dá uma dor, um sentimento estranho. Tenho medo”, comenta. Cobrança. Para o cuidador de idosos Juarez Moreira de Melo, 53, pai de Charlys Frederico Moreira do Nascimento, 25, a outra vítima do acidente, além de toda a dor e do sofrimento pelo qual passa a família, é difícil lidar com os questionamentos de todos a seu redor. “As pessoas comentam, sempre perguntam em que resultou o inquérito. Escuto falar sobre isso até dentro do ônibus. É uma angústia muito grande, porque eu não sei. Não tenho essas respostas, e essa indefinição é muito dolorosa”, conta. Assim como a família de Hanna, o que Melo espera agora é poder responder a essa pergunta básica. Ele e a ex-mulher já haviam perdido outra filha antes de Charlys e, por isso, além de ter que lidar com a morte, a falta de respostas torna a espera ainda mais angustiante. “O que todos querem é dar nome a essa tragédia. Dizer quem foram os culpados pela morte do meu filho e por esse acontecimento sem precedentes que abalou vidas e toda a cidade”.  *Os ônibus suplementares provêm dos antigos perueiros e, como não há licitação para operação do serviço, as famílias proprietárias dos veículos detêm os direitos de exploração.

Pai reclama da falta de apoio dos responsáveis pela obra O pai de Charlys Frederico Moreira do Nascimento, 25, também reclama da assistência oferecida pela prefeitura e pelos responsáveis pelo viaduto. Segundo Juarez Moreira, não houve um contato frequente, um acompanhamento e a preocupação com as necessidades dessas famílias. “Eles falaram sobre oferecer assistência psicológica, mas nunca me ligaram ou me procuraram para falar sobre isso. E eu acho que minha ex-mulher, a mãe de Charlys, está muito abalada e realmente precisava de um apoio. Além da espera e de não ter um culpado, também não fomos procurados para nada”, afirma. À época do acidente, a prefeitura disponibilizou atendimento para os familiares das vítimas no Hospital Odilon Behrens, em Belo Horizonte.

Flash Itinerário. A família de Hanna tentou mudar o trajeto percorrido pelo suplementar da família, mas não conseguiu. Hoje, apenas Tiago continua com o ofício, mas, segundo ele, isso só gera mais dor, angústia e lembranças da irmã, que também era motorista e um orgulho para eles.

Flash Cavalos. Juarez Moreira conta que o sonho de Charlys era ter um sítio e criar cavalos. “Ele sempre participava de cavalgadas e dizia que ia ter um pedacinho de terra, mas não teve tempo”.

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