Imagens fluidas como a água

A mostra “As Transparências Líquidas da Imagem”, centrada na obra de Oscar Muñoz, é inaugurada amanhã em BH

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Obra. O vídeo “Linea del Destino” (2006) é uma das criações mais recentes de Oscar Muñoz em exposição
oscar muñoz/reprodução
Obra. O vídeo “Linea del Destino” (2006) é uma das criações mais recentes de Oscar Muñoz em exposição

Há mais de duas décadas, o colombiano Oscar Muñoz deu um passo definitivo em sua carreira. O artista, que apresenta suas criações na exposição “As Transparências Líquidas da Imagem”, a ser inaugurada amanhã, na Casa do Baile, havia passado boa parte dos anos 80 revendo as suas pesquisas, e, em 1992, chegou ao trabalho “Cortinas del Baño”.

Considerada um marco do rumo que tomou a sua produção artística, a obra revelou a partir dali a busca pelo uso experimental de materiais na composição de imagens. No caso dessa, dois elementos fundamentais incorporados por ele foram o vapor de água e as cortinas de plástico, frequentemente empregados para separar a área em torno da ducha dos outros espaços do banheiro.

“É justamente de 1992 em diante que ele começa a associar o cuidado com temas como a memória e o esquecimento à ideia de estudar variadas formas de produzir imagens coerentes com aquelas temáticas. Por isso, ele se vale de uma inusitada qualidade de substâncias, o que expressa a preocupação em lidar de maneira apropriada com a questão da efemeridade”, comenta Carlos Lerma, assistente de Munõz.

Em Belo Horizonte para contribuir na montagem da mostra, Lerma vai participar, amanhã, às 17h, de um bate-papo com o curador da mostra, Philippe Dubois, atualmente professor visitante da UFMG. Lerma observa que o acervo a ser visto aqui foi concebido entre 2000 e 2011. No conjunto, ele diz haver em comum uma relação muito íntima com a fotografia.

“Embora o resultado do seu trabalho não seja fotográfico no sentido mais tradicional do termo, ele se sustenta conceitualmente na fotografia. Acredito que isso o permite lidar com o universo das memórias de diversas maneiras, especialmente quando aplica os princípios da fotografia em outros suportes que não o papel, a exemplo da água, como notamos em várias de suas obras”, explica Lerma.

O interesse pelo líquido, pontua o assistente, reflete a tentativa do artista em encontrar soluções capazes de representar o movimento entre fixação e apagamento, recorrente no vai e vem das lembranças. “A água é um material muito difícil de fazer com que, em condições normais, ela permaneça numa situação estática. Suas partículas se deslocam com facilidade e se evaporam, então há uma sincronia muito precisa entre a natureza dela e os conceitos que ele trabalha”, afirma.

Um exemplo dessa dinâmica é a série de objetos nomeada “Narcisos”. Compostos em caixas de acrílico preenchidas com água, nesses surgem flutuando alguns retratos. “O interessante é que eles se estabelecem como uma obra em processo. Nada ali é estável e a questão da impermanência aparece muito forte. Ainda mais que a água se torna vapor ao longo do tempo, então, tudo muda e isso altera também a dimensão da imagem”, acrescenta Elisa Campos, coordenadora da exposição e artista convidada junto com Eder Santos e Renato Gaia a dialogar, por meios de outras propostas, com o repertório de Muñoz.

Outro trabalho ressaltado, desta vez por Lerma, é o vídeo “El Poente”. Para ele, este deixa claro o modo como Muñoz aborda a memória por meio de diferentes perspectivas. “Em cada uma de suas criações, nós percebemos como ele lida com esse recorte, a partir de diferentes ângulos. Em alguns casos, seu foco é a realidade social ou a própria violência existente na Colômbia. Já em ‘El Poente’, nós percebemos como ele evoca memórias da cidade de Cali e faz isso revisitando uma grande variedade de imagens e negativos de outras pessoas colecionados por ele nos anos 70, e que, quase duas décadas depois, ele os utiliza numa ação, baseada na projeção daquele material no rio de Cali”, detalha ele.

De grande importância também é o vídeo “Lineas del Destino”, no qual aparece o registro de uma mão, na qual repousa uma pequena poça d’água com imagens projetadas nela. “Nós vemos ali o reflexo distorcido do rosto de Oscar. Ele está, de certa forma, se desmanchando e, como a água, não parece ser algo que se mantém por muito tempo entre as mãos”, observa Lerma.

Agenda

O quê. Abertura da mostra “As Transparências Líquidas da Imagem”

Quando. Amanhã, às 16h; até 7/6, de 3ª a dom., das 9h às 18h

Onde. Casa do Baile (av. Otacílio Negrão de Lima, 751, Pampulha)

Quanto. Entrada franca

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