Cheiro ajuda a desvendar crimes

Estudo realizado em Portugal investigou o papel dos odores corporais em atos de violência

iG Minas Gerais | Litza Mattos |

Inverso. Cena de “O Perfume”, no qual o assassino escolhia suas vítimas pelo cheiro
Inverso. Cena de “O Perfume”, no qual o assassino escolhia suas vítimas pelo cheiro

Mais rápido do que a visão e a audição, o olfato é um dos sentidos mais importantes para o alerta de situações potencialmente perigosas, como o vazamento de gás ou fumaça. Diretamente relacionado ao cérebro, é ele também que, em questão de segundos, pode nos trazer uma enxurrada de lembranças. Agora, pesquisadores da Universidade de Aveiro, em Portugal, descobriram que a memória olfativa também pode ser mais assertiva na identificação de criminosos do que qualquer outro sentido.

Durante as investigações de crimes, especialmente aqueles em que a vítima teve contato direto com o agressor. É comum o odor corporal do ofensor ser descrito pelas vítimas, segundo a investigadora do Laboratório de Psicologia Experimental e Aplicada (PsyLab) Laura Alho. “Todos conseguimos recordar determinados cheiros, por mais distantes que estejam. As memórias evocadas pelos odores são mais vívidas e intensas do que as despertadas por outras pistas sensoriais. É por essa razão que, nas entrevistas, incitam-se as testemunhas a recordarem toda informação possível, como traços físicos, discursos, ruídos e também odores”.

Laura cita como exemplos dois casos diferentes de crimes sexuais. “Uma das vítimas descreveu o odor como sendo de óleo de carro, e a outra disse que cheirava a carne. Esses descritivos podem parecer irrelevantes, mas foram cruciais para a investigação, uma vez que permitiram excluir uma série de profissões. O ofensor do primeiro crime era um mecânico de oficina, e o segundo era açougueiro”, pontua.

Oitenta voluntários participaram da pesquisa portuguesa. Expostos a cenas reais de crimes violentos e a odores corporais previamente recolhidos pelos investigadores, em seguida, eles foram questionados sobre qual cheiro estivera presente durante a exibição dos filmes. Os resultados revelaram que a taxa de acerto foi de 75%, maior do que os 45% a 60% das identificações corretas alcançadas pelos métodos tradicionais.

Laura explica que a maior assertividade acontece por um fenômeno conhecido como “aprendizagem associativa”. “Quando vivenciamos alguma situação (positiva ou negativa) e a ela associamos um odor, essa ligação se torna forte, e, quando expostos mais tarde a esses odores, as memórias olfativas nos fazem sentir aquilo como na primeira vez”.

A psicóloga afirma que o fato de as memórias evocadas por odores serem mais intensas se deve à ligação privilegiada que o bulbo olfativo tem com estruturas do cérebro (veja infográfico). “A memória visual pode sofrer uma construção na informação. De tanto a vítima repetir a descrição ou ouvir comentários de alguém, ela acrescenta informação errada. Com a memória olfativa não há esse risco”.

Segundo o presidente da Associação de Criminalística do Estado de Minas Gerais (Acemg), Walney José de Almeida, o estudo feito em Portugal ainda precisa ser esmiuçado para que seja usado como meio pericial. “A psicologia forense tem avançado muito, mas especialmente no Brasil ainda é utilizada apenas como suporte. Seus resultados não são tratados como matéria científica como as demais provas periciais que são irrefutáveis, tanto que não utilizamos no Brasil polígrafos (detectores de mentira) ou meios afins. Apenas a psiquiatria forense praticada pelos peritos médicos-legistas é considerada uma ciência e é acatada pelos tribunais sem ressalvas”, avalia.

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