Procura-se um diretor

iG Minas Gerais | Marcus Celestino |

Comportamento ingênuo de Chappie diverte, mas não é suficiente para segurar o filme do sul-africano Neil Blomkamp
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Comportamento ingênuo de Chappie diverte, mas não é suficiente para segurar o filme do sul-africano Neil Blomkamp

O resumo de “Chappie”, novo filme do sul-africano Neill Blomkamp (“Distrito 9” e “Elysium”), em cartaz nos cinemas da capital , já nos é apresentado nos primeiros minutos da trama. A África do Sul troca todo o seu contingente policial humano por um frota de robôs dotados de inteligência artificial e, com isso, a eficiência no combate à criminalidade aumenta consideravelmente.

O sonho de Deon (Dev Patel), inventor das máquinas, é que estas tenham emoções, gerando resistência de sua chefe (Sigourney Weaver). Além disso, temos um vislumbre de Vincent (Hugh Jackman), rival de Deon, e também de um grupo de criminosos que buscam nos seres robóticos auxílio para assaltar um banco. E aí entra o personagem-título.

O inventor é sequestrado pelos assaltantes com a finalidade de pegar um restolho e transformá-lo numa máquina de combate. Contudo, Deon sugere a inserção de uma nova inteligência artificial na qual está trabalhando, porém, ainda em fase de testes e voilà, somos agraciados com “Chappie”.

Sharlto Copley, com um excelente trabalho vocal e corporal, nos dá um robô adorável e os melhores momentos da película. As descobertas do ingênuo Chappie, a curiosidade e, especialmente, o comportamento e índole de seus tutores influenciam em sua construção emocional. Vale destacar He-Man erguendo a sua espada e suas primeiras tentativas de empunhar uma arma. Ademais, o robô aprende todos os maneirismos de seus “donos” e porta-se como um membro de gangue, o que é divertidíssimo.

Queda livre

Assim como a carreira de Blomkamp, que começou de maneira promissora com “Distrito 9” uma alegoria fantástica do Apartheid a qualidade de “Chappie” vai caindo a cada tomada. 

Tomemos as atuações como exemplo. O diretor escolheu a dupla de rappers sul-africanos Ninja e Yolandi Vi$$er, do Die Antwoord, para os papéis dos criminosos Ninja e Yo-Landi. Numa clara falta de aptidão para a Sétima Arte, o duo deixa a desejar no quesito atuação. Eles bem que poderiam ficar restritos aos seus videoclipes, ácidos e bem produzidos.

Hugh Jackman também está na trama. Demonstrando dificuldades para sair da carapaça de Wolverine, o australiano não convence como antagonista e parece atuar com o piloto automático ligado. Dev Patel não compromete, mas reforça sua pecha de ator que não agrega na construção do personagem.

Exceção, porém, é Sharlto Copley. O sul-africano, por meio de expressões corporais e voz, dá vida a Chappie e não deixa o robô cair numa espiral de ingenuidade. Muitos detratores do robô têm o comparado com Jar Jar Binks, da segunda trilogia de “Star Wars”, mas Copley tem traquejo suficiente para não cair em território tão irritante.

Todos os predicados e, principalmente, os defeitos de “Chappie” convergem para a figura do seu realizador. Neill Blomkamp já havia fracassado na sua crítica social em “Elysium”, mas nessa nova obra ele atinge o ponto mais baixo de sua carreira. A premissa é interessante (um “Wall-e” para adultos ou um “Blade Runner” para meninos), mas o diretor e roteirista prima pelo comentário político e joga tudo pelos ares. Será que Blomkamp pode ser colocado no panteão daqueles que apenas conseguem conceber um único trabalho brilhante e nada mais fazem de substancial? Preferimos crer que não.

Panache visual

Se você gostou dos trabalhos anteriores de Blomkamp não irá se decepcionar. Os efeitos visuais são bem elaborados, especialmente se tratando do robô antagonista, um gigantesco Robocop criado pelo personagem de Jackman. A visão de Blomkamp sobre seu país de origem segue acurada e é das poucas coisas positivas que seguem intactas no leque do diretor. Das poucas mesmo.

Existe tanta essência em “Chappie” quanto em seu protagonista. Todavia, Neill Blomkamp deixa boas ideias e efeitos visuais de qualidade superior naufragarem graças a uma pobreza narrativa sem tamanho. Enquanto algumas partes da obra agradam, o todo não é satisfatório; falta algo ao realizador para compilar a trama. Procura-se o talento de Blom-kamp, que já deu ao mundo um dos melhores filmes de ficção científica da história. Procura-se um diretor.

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