O vice-presidente sobe ao proscênio

iG Minas Gerais |

Motivado pela experiência do saudoso vice-presidente da República Aureliano Chaves, notadamente nas suas relações funcionais e até pessoais com o presidente Figueiredo, em fase dramática do seu mandato, quando os primeiros sintomas de provável demência senil começaram a ser percebidos pela sua “entourage”, cunhei um curto provérbio: o vice-presidente é útil quando inútil. Aureliano não se adaptou à solidão do Jaburu. Acostumado a uma vida pública intensa, deixou-se levar pelo impulso de servir. Foi um desastre. Figueiredo, de quem diziam ser um homem inteligente, não compreendeu o gesto do seu companheiro, entrou na implicância dos melindrados, ou talvez já sob os efeitos da doença que o acometeu, e o prato começou a entornar. Os áulicos não perderam tempo; eram muitos e poderosos, com acesso presidencial direto. E as coisas foram se azedando. Contribuição esperada veio logo do chefe de gabinete da vice-Presidência, um desastrado oficial da ativa, indiscreto e falastrão, que praticamente tomou de assalto o gabinete, formando o cadinho ideal para o desentendimento que o presidente Geisel não previu, uma vez que o esquema que montou e se evaporou reservava a Aureliano a missão de promover o encerramento do ciclo militar, que os generais esclarecidos já sabiam estar esgotado. O vice-presidente só almejava colaborar; acabou dando no que deu, com a tragédia jamais imaginada de elevar-se à Presidência do país, com todos os seus graves defeitos de coronel dos sertões maranhenses, adesista empedernido às ordens de qualquer governo. Não me demoro na questão. Que dela tratem os historiadores, que, parece, têm-se omitido. Faço bom juízo do vice Michel Temer. Vejo nele algumas qualidades que me atraem, tais como equilíbrio, senso de proporção, experiência, sobriedade. Não creio que a sua ação possa provocar a ira da presidente. Contudo, ninguém sabe. As pessoas medíocres não costumam ter a sabedoria dos bons governantes, como Disraeli, Milton Campos, Tancredo Neves e outros estadistas do mesmo naipe. Na minha opinião, a presidente Dilma, ao confiar a coordenação política do seu governo ao vice-presidente Temer, viu-se diante de três alternativas: a) se exitosa a decisão, ceder ao ciúme do sucesso do vice. Se resolver afastá-lo sob a pressão do impulso compulsivo, não justificará seus erros perante a história. Nesse caso, severamente avaliada pela posteridade, o seu nome será uma lembrança incômoda. b) Também o contrário é suscetível de acontecer: obtida a trégua no front político-congressual, poderá S. Exa. devotar-se ao governo, reorganizando-o, mormente na vertente econômica, em esforço sincero de remissão dos prejuízos causados à nação pela gestão caótica do seu primeiro mandato. É bom também não ter ilusões: os danos foram de tal monta que só haverá sucesso se buscá-lo apenas nessa esfera, o que já será muitíssimo. c) Entretanto, se tentar completar o atual mandato, no tumulto que o iniciou, tudo se tornará imprevisível; nada se conquistará sem a virada salvadora.

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