Ainda poderosa e influente

iG Minas Gerais |

Embora venha registrando queda na audiência desde os anos 90, a Rede Globo, como observa Silvia Borelli, permanece na liderança das TVs abertas. Uma das organizadoras do livro “A Deusa Ferida”, o qual traz análises sobre porque a emissora não é mais a campeã absoluta de público nacional, a antropóloga reflete como, apesar dessa constatação, as produções globais, a exemplo das telenovelas continuam mobilizando a opinião pública.

Uma mudança apontada por ela, no entanto, é a fidelidade de público, como aquela construída na década de 60 e que, inclusive, pautava a vida cotidiana das pessoas. “Elas costumavam dizer assim: vamos nos encontrar antes ou depois do ‘Jornal Nacional’, por exemplo, e isso de alguma forma desapareceu. Qualquer um pode entrar no YouTube para ver, ao menos, as cenas do programa de seu maior interesse a qualquer momento. Isso não significa, contudo, que a telenovela deixa de ser uma canal importante de potencialização de discursos que circulam no ambiente familiar e depois se espalham para outros espaços públicos”, diz Borelli.

“Isso é tão evidente hoje que uma novela como ‘Babilônia’, consegue provocar uma impacto absurdo a ponto de gerar um debate religioso quando evangélicos proibem seus fiéis de assistirem à novela, e, ao mesmo tempo, gera uma discussão fortíssima nas redes socais e que alcança vários jovens e adultos”, acrescenta.

O jornalista e sociólogo Venício Artur de Lima também ressalta como a Globo mantém uma influência “determinante na construção da agenda pública e no enquadramento, sobretudo, do noticiário político”. Ele atribui boa parte desse poder ao modo como ela conseguiu constituir uma vasta rede de afiliadas.

“A Globo, apesar de estar limitada pela legislação brasileira que só permite que o mesmo grupo tenha cinco emissoras próprias em diferentes Estados nominalmente, na prática ela consegue ser maior do que isso em razão das mais de cem emissoras afiliadas. Essa relação é definida por meio de contratos privados e que, de certa forma, transforma toda a rede numa mesma emissora”, diz Venício Artur de Lima.

“Isso tem a ver não só com a logotipia, com os treinamentos dos jornalistas, com a grade de programação, mas, sobretudo, com o enquadramento que essas afiliadas têm que se sujeitar com a venda do espaço publicitário negociado por uma central controlada pela cabeça de rede e de cujo esquema as afiliadas ficam dependentes”, acrescenta.

Ele frisa que toda a rede obedece, assim, a um comando único sob o qual o Estado não exerce nenhum controle. “O que dá à Globo um poder que eu desconheço igual em qualquer lugar do mundo. Se pensarmos nos Estados Unidos, por exemplo, lá existe uma agência que regula não só a propriedade cruzada, quando uma empresa é dona de emissoras, jornais e revistas, por exemplo, mas também das redes. Aqui não há nenhuma regulação delas porque os contratos são privados”, conclui Lima. (CAS)

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