Uma relação passada a limpo

“Atrás dos Olhos das Meninas Sérias” volta ao cartaz e cumpre temporada até domingo no Espaço Aberto Pierrot Lunar

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Confissões. Na peça da Cia. Pierrot Lunar, Ana é uma protagonista que resolve dizer tudo sobre sua sexualidade e seus sentimentos
Guto Muniz
Confissões. Na peça da Cia. Pierrot Lunar, Ana é uma protagonista que resolve dizer tudo sobre sua sexualidade e seus sentimentos

Quando a peça “Atrás dos Olhos das Meninas Sérias”, da Cia. Pierrot Lunar, estreou em 2007, Neise Neves lembra que ela provocou um certo impacto na plateia, em razão do modo como Ana, sua personagem, expunha sua sexualidade e suas angústias de forma explícita. Ao voltar ao cartaz, a partir de hoje e em cartaz até domingo, exceto quinta-feira, no Espaço Aberto Pierrot Lunar, ela revela estar interessada em perceber como o público pode agora se relacionar com aquele discurso feroz e íntimo.

“Ao longo dos anos, quando reapresentamos esse trabalho, nós percebemos que a escuta e a recepção dele estava mudando. Os temas apresentados na fala de Ana, como a questão da condição da mulher, pareciam atingir as pessoas de outra forma. Então, nós conseguíamos notar como algumas pautas, talvez, estivessem avançado ou não. Recentemente, nós temos observado o retorno de um certo conservadorismo, então vai ser interessante sentir como o trabalho se insere no momento presente”, observa Neise Neves.

Em cena, ela vive a protagonista da história ao lado de Léo Quintão, que entre outra personagens, interpreta o ex-marido de Ana. Esta, a fim de passar toda a relação a limpo, se coloca diante dele e dispara tudo o que havia acumulado, mas não tinha tido a iniciativa de dizer.

“O mote do espetáculo é esse. Ela começa já comentando algumas coisas do dia a dia, desde quando chegou em casa, e, deitada na cama, ela apresenta as personagens, imaginando o que cada um deve estar fazendo paralelamente e deixa claro que quer um acerto de contas. Ela está disposta a falar e vai dizer a beça o que está atravessado, vai contar tudo”, sintetiza Neves.

Daí em diante, a narrativa flui em flashbacks e as situações que envolvem a vida em casal vão surgindo enquanto Ana dispara as suas visões e os seus comentário sobre os acontecimentos. “À medida que Ana vai relatando uma coisa, ela lembra de outra. Assim, surge na fala dela uma festa na casa de uma amiga que nos leva a uma outra cena. Quando isso acontece, eu e Léo, às vezes, alternamos os papeis, e ele encarna outros personagens”, explica a atriz.

Pesquisa. Adaptação do romance “Falar”, de Edmundo de Novaes Gomes, a montagem, observa Léo Quintão, nasce a partir de uma pesquisa do grupo, que, desde “Visões do Paraíso” (2004), vinha assinalando o interesse em tratar do universo feminino. Como aquela obra também trata dessa temática, a cia. a tomou como base para este trabalho.

Uma maneira de lidar com o conteúdo literário, de acordo com Quintão, foi reduzir ao mínimo a interferência na versão original da narrativa.

“Mais do que lidar com a lógica de uma adaptação, nós nos guiamos pelo procedimento de edição. Ou seja, foram feitos pequenos cortes no texto, que não é a princípio dramático. Nossa pesquisa lida justamente com isso, em como se utilizar de um referência literária não concebida primeiramente para o teatro. No caso de um romance, isso exige um outro tipo de embocadura dos atores para que eles possam dizer esse texto da melhor maneira”, acrescenta Quintão.

Outro aspecto ressaltado por ele é a cenografia assinada por Ed Andrade. Minimalista, o ambiente em que transcorre a ação é centrado apenas num tatame associado a ideia de um grande colchão. Em torno dele está a plateia que permanece disposta no formato de arena.

Neves, por sua vez, pontua que isso gera uma proximidade maior entre os atores e os espectadores, contribuindo para gerar um laço de cumplicidade. “Nós ficamos muito perto do público e, de certa forma, eles participam do espetáculo, como se fossem confidentes de Ana, por exemplo. Eles acompanham o depoimento da personagem que estabelece com eles um tipo de vínculo”, conclui a artista.

Programe-se

A peça “Atrás dos Olhos das Meninas Sérias”, da Cia. Pierrot Lunar, volta ao cartaz comemorando o número de 100 apresentações e pode ser vista hoje, amanhã, 4ª, 6ª, sábado e domingo, às 20h, no Espaço Aberto Pierrot Lunar (Rua Ipiranga, 137, Floresta).

Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).

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