‘Novas famílias’ ainda lutam por reconhecimento na sociedade

Mesmo amparadas por leis, configurações que fogem do modelo clássico enfrentam preconceito

iG Minas Gerais | Litza Mattos |

Normal. Ivson, o companheiro Carlos e os três filhos: “Não somos uma família bizarra”
fotos álbum de família
Normal. Ivson, o companheiro Carlos e os três filhos: “Não somos uma família bizarra”

“A gente não teve pai, veio duas mães cuidar da gente”. Essa foi a resposta que a pequena Thainá, 7, deu à prima, logo no primeiro encontro com os parentes da família adotiva. Thainá e a irmã Thalita, 9, foram adotadas há cerca de um ano, em Recife, pela educadora física Paula Brasil, 38, e pela gerente de recursos humanos Taciana Estevão, 37.

“Desde o princípio explicamos como seria a nossa configuração familiar, porque o nosso entendimento é de que pela verdade e a sinceridade tudo fica mais simples”, diz Paula.

A adoção homoparental é apenas uma das inúmeras formas das atuais configurações familiares, mas dados do Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que essas famílias já estão em mais de 50,1% dos lares brasileiros.

Mesmo dividindo espaço em termos estatísticos com a conhecida formação clássica de família, recentemente, as críticas ao beijo de duas mulheres no capítulo de estreia da novela “Babilônia” e o desarquivamento do Projeto de Lei 6.583/2013, mais conhecido como o Estatuto da Família, pelo presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ), deixaram evidente que a aceitação ainda é tabu para grande parte da sociedade.

Vale lembrar que, pelo estatuto que o Congresso pretende colocar em votação, a definição de família está baseada no núcleo formado a partir da união entre homem e mulher. Até sexta-feira passada, uma enquete no site da Câmara mostrava que 53,8% dos brasileiros concordam com a definição clássica, contra 45,8% dos que discordam.

“A mudança na organização estrutural da família já é fato efetivo. Temos avanços na área jurídica e leis que contemplam essas famílias. É algo que não dá mais para a sociedade mudar”, afirma a presidente da Associação Mineira de Terapia de Família (Amitef), Andrea Moreira Maciel.

O executivo de contas Ivson Rodrigues, 33, e o bancário Carlos Alberto da Silva, 33, construíram um “alicerce sólido”, sabendo que os filhos mudariam suas vidas. “Já sentíamos que éramos uma família, mas a chegada dos meninos fortificou muito mais a ideia de um lar completo. Eles fizeram a gente se aceitar e fortalecemos muito mais algo que era retraído pela pressão da sociedade”, conta Rodrigues.

Pais de três garotos adotados – Carlos Eduardo, 7, Ivson Júnior, 11, e João Lucas, 13 –, o “pai Ivson”, como é chamado pelos filhos, diz que hoje eles formam “a casa dos cinco homens”. “Conversamos para mostrar que não queremos tomar o espaço de ninguém”, diz.

Juntas há 11 anos, a cortadeira Flávia Vieira, 44, e a motorista Selma, 38, também formam uma família com as filhas do primeiro casamento de Flávia. “Casada com um homem eu não tinha nome, só existia como esposa. Do lado de cá você existe”, diz Flávia.

Andrea Maciel, da Amitef, defende que é preciso acompanhar as mudanças de valores e de configurações familiares. “Sem esquecer que o que une as pessoas é o amor, e não preconceitos”, diz.

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