Delator diz que Vaccari trazia demandas de empreiteiras à Petrobras

Segundo Barusco, os pedidos de Vaccari eram atendidos "dentro do possível, no limite dos procedimentos e requisitos técnicos da Petrobras"

iG Minas Gerais | Folhapress |

Engenheiro Pedro Barusco (à direita), ex-gerente da Petrobras e delator da operação Lava Jato, depõe na CPI
Antonio Cruz/Agência Brasil
Engenheiro Pedro Barusco (à direita), ex-gerente da Petrobras e delator da operação Lava Jato, depõe na CPI

O ex-gerente de engenharia da Petrobras Pedro José Barusco Filho afirmou que o tesoureiro nacional do PT, João Vaccari Neto, costumava apresentar reivindicações de empreiteiras que mantinham contratos com a estatal, incluindo resolução de problemas envolvendo licitações, celebração de aditivos e inclusão na lista de empresas cadastradas na petroleira.

O depoimento foi prestado no dia 12 de março e anexado aos autos da Operação Lava Jato nesta segunda-feira (23). Barusco já reconheceu ter recebido pelo menos US$ 97 milhões em propinas em contas bancárias abertas em nome de suas empresas offshore no exterior, dinheiro que se comprometeu a devolver à União.

Segundo Barusco, os pedidos de Vaccari eram atendidos "dentro do possível, no limite dos procedimentos e requisitos técnicos da Petrobras".

O ex-gerente afirmou que manteve com Vaccari cerca de uma reunião por mês entre meados de 2011 a meados de 2013, quase sempre acompanhados do diretor da área de serviços da Petrobras, Renato Duque, indicado ao cargo pelo PT. As reuniões, segundo Barusco, ocorreram em diversos hotéis, como Ceasar Park, Sofitel Copacabana e Windsor Copacabana, no Rio, e Sofitel Sena Madureira, Transamérica Morumbi e Meliá da alameda Santos, em São Paulo.

Além de reivindicações das empreiteiras, segundo Barusco nas reuniões se discutia o andamento de projetos e contratos na Petrobras sobre os quais Vaccari tinha interesse em ter conhecimento.

Outro tema central das reuniões era, ainda de acordo com o ex-gerente, "as divisões do pagamento de propina" relativas aos contratos das empresas de construção civil com a Petrobras. Ele disse que, depois de cada reunião, ia "buscar o operador que trabalhava com a empreiteira contratada".

Barusco contou que as primeiras reuniões foram marcadas por Duque, que depois agregou Vaccari às conversas. Os encontros eram agendados com antecedência por mensagens eletrônicas. O delator disse que utilizava na época, para esses encontros, pelo menos sete telefones celulares com prefixo do Rio.

ESTALEIRO

O ex-gerente voltou a reconhecer que recebeu propina acerca de um contrato fechado entre o estaleiro Kepell Fels e a empresa Sete Brasil. Os depósitos, disse, foram feitos pelo operador Zwi Zcornick em conta aberta pelo ex-gerente no banco Delta em Genebra, na Suíça.

Barusco afirmou que "tem certeza que o valor destinado a João Vaccari foi pago, uma vez que somente passou a receber a sua parte após o faturamento do contrato ter ultrapassado o montante da propina destina a Vaccari".

Segundo anotações entregues à Polícia Federal, Vaccari teria recebido US$ 4,5 milhões somente naquele contrato.

O ex-gerente da Petrobras também deu mais um detalhe sobre as propinas que passou a receber em 1997 da empresa holandesa SBM. Segundo ele, o dinheiro lhe era entregue pelo operador Julio Faerman. Sem explicar o motivo, ele disse ainda acreditar que "a SBM não sabia deste pagamento".

OUTRO LADO

Em nota divulgada no dia 10 de março, após Barusco ter prestado depoimento na CPI da Petrobras, a Secretaria Nacional de Finanças do PT afirmou que Vaccari "reitera que nunca tratou de finanças ou doações para o partido com o senhor Pedro Barusco, delator que busca agora o perdão judicial envolvendo outras pessoas em seus malfeitos".

Segundo o partido, Barusco "não apresentou nenhuma prova ou mesmo indício que liguem o secretário João Vaccari Neto ao recebimento de propinas, apesar de falar [à CPI] por mais de 5 horas e ser reiteradamente questionado pelos integrantes da bancada do Partido dos Trabalhadores, e também por deputados de outros partidos".

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