O abandono dos vapores do rio São Francisco

iG Minas Gerais |

Domingos Diniz, Ivan Passos Bandeira da Mota e Mariângela Diniz publicaram um livro sobre os vapores, registrando a história da navegação entre Pirapora e Juazeiro por mais de um século. Eles desapareceram da paisagem são-franciscana, porque o descaso com a hidrovia foi mais forte, apesar da sua importância para o Norte de Minas. Consumiam muita madeira em suas fornalhas, causa de desmatamento na área, mas os benefícios eram imensuráveis para a economia e mobilidade dos ribeirinhos e de outros brasileiros que viajavam entre o Nordeste e o Sudeste. O primeiro vapor foi o Saldanha Marinho, que saiu de Sabará, em 1871, e atingiu o sul de Pernambuco nessa viagem inaugural. Em 1877, foi fretado pela Companhia Cedro e Cachoeira, que vendia seus tecidos ao longo do trecho navegável. Desativado no fim do século XX, está numa praça de Juazeiro, após adaptação para restaurante. Os januarenses falam com pesar sobre seu principal meio de transporte que ficou perdido para sempre. O Affonso Arinos navegava no rio Paracatu, afluente pela margem esquerda. O Santa Clara naufragou na segunda viagem, em 1932. Aconteceu o mesmo com o Fernandes da Cunha e o Governador Valadares. Durante a ditadura Vargas, presos políticos eram despejados no rio, do Baependi, e morriam afogados. O barão de Cotegipe levava pracinhas que iam patrulhar o Nordeste, durante a Segunda Guerra Mundial, para evitar ataque de submarinos nazistas no oceano Atlântico. O São Francisco foi recuperado, em 2000, e destruído por incêndio, logo depois, próximo ao porto de Pirapora. O São Salvador é usado, atualmente, em Ibotirama (Bahia) como navio-escola. O Mauá era muito procurado, mesmo gastando de oito a nove dias para descer o rio e de 12 a 14 dias para subir. O Wenceslau Brás iniciou as viagens em 1919 e era o mais luxuoso. Patrulhou as margens do São Francisco enquanto a Coluna Prestes atravessava o sertão, entre 1924 e 1927. Era conhecido por “Paraíso das Damas”, tal o conforto gozado pelos passageiros da primeira classe. Eles dançavam, em saraus após o jantar, ao som de sanfona, violão e pandeiro. Turistas estrangeiros viajavam do Rio de Janeiro para Belo Horizonte, de onde seguiam para Pirapora, em locomotiva da Central do Brasil. Dali, curtiam o vapor até Juazeiro. Partiam depois para Salvador, de onde retornavam ao seu país. Quando ele ficava encalhado, passageiros e tripulantes compravam frutas e doces dos ribeirinhos. Infelizmente, virou sucata, ancorada em algum ponto do rio. O mais famoso foi o Benjamim Guimarães, adquirido por Júlio Mourão Guimarães, em 1920. Ficou inativo por algum tempo e foi transferido, em 1997, para a Prefeitura Municipal de Pirapora. Após restauração e reinauguração, em 2004, era usado para passeios turísticos até Barra do Guaicuí. Isso foi suspenso em 2014, porque o baixo volume do rio e os bancos de areia estavam comprometendo a segurança da navegação.

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