Sem controle, WhatsApp vira um propagador de mentiras

Aplicativo de mensagens instantâneas foi utilizado para o mal durante as eleições deste ano

iG Minas Gerais | Lucas Pavanelli |

Antes do início das campanhas, era tarefa difícil prever quais os efeitos das redes sociais nas eleições deste ano. Se, em 2010, os candidatos à Presidência começaram a dar um pouco mais de atenção ao eleitorado que se informa, sobretudo pelo Facebook e o Twitter, neste ano, as ferramentas se multiplicaram e um novo elemento foi adicionado ao debate: o WhatsApp, o aplicativo de troca instantânea de mensagens de texto, áudio e vídeo. Mas nem sempre pelo lado positivo, já que o meio foi utilizado como propulsor de divulgação de boatos e mentiras.

A professora do curso de direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio de Janeiro Silvana Batini avalia que o WhatsApp se impôs no pleito deste ano como ferramenta poderosa de propaganda para as campanhas, mas que, nas próximas eleições, alguns aspectos têm que ser revistos para que as campanhas sejam mais efetivas. Em alguns casos, as mensagens podem gerar desconforto nos usuários. “O que vai ser preciso é dar opção para o eleitor se descredenciar. As propagandas podem ser invasivas, e o tiro pode sair pela culatra. Outro problema é fiscalizar o uso do banco de dados. É preciso que haja uma disciplina legal que seja mais firme para proteger o usuário”, avalia. Silvana afirma que o uso da ferramenta foi ainda mais intenso durante o segundo turno, período também em que cresceram os conteúdos falsos e boatos. Na manhã de domingo, dia de votação em segundo turno, uma mensagem de que o doleiro Alberto Youseff teria sido envenenado foi disseminada indiscriminadamente. A Polícia Federal e o Ministério da Justiça tiveram que ir a público negar as informações. No mesmo dia, antes da divulgação oficial do resultado, mensagens compartilhadas em grupos de amigos deram como certa a vitória do candidato do PSDB Aécio Neves. As urnas desmentiriam o boato pouco tempo mais tarde. “Você não pode condenar o meio por causa do seu mau uso. Então, é obvio que qualquer tipo de uso para espalhar boato e inverdade é irregular e pode enveredar para abuso de uso de meios de comunicação. O que é mais difícil, no entanto, é a apuração da irregularidade”, afirma Silvana. A dificuldade, agora, é adequar a legislação à velocidade do novo meio. “Acho que, nas eleições deste ano, as redes tiveram papel impressionante, muito maior que antes. Deu para sentir e já imaginávamos que isso estava para acontecer. Não temos legislação que acompanhe a velocidade em que as mídias sociais se renovam. A maneira como a propaganda é feita acabou tirando o controle da Justiça Eleitoral”, avalia a professora. Prognóstico. Como mostrou O TEMPO, em junho, antes mesmo do início oficial da campanha, o uso do aplicativo já dava sinais do que poderia significar a campanha na rede mundial de computadores. Foi pelo WhatsApp, por exemplo, que circulou o vídeo em que o ex-governador de Minas Newton Cardoso (PMDB) declarou apoio ao hoje governador eleito Fernando Pimentel (PT). Só mais tarde é que o vídeo foi usado por alguns partidos nas inserções na televisão.

Fiscalização Com a novidade do WhatsApp neste ano, os meios de comunicação tradicionais enfrentaram um desafio novo: desmentir os fatos inverídicos e boatos com a velocidade com que eles circulavam na rede. O TEMPO mostrou na semana passada, por exemplo, que um “estrategista político” ligado ao PSDB espalhou um boato em que eleitores de Dilma Rousseff não deveriam votar no último domingo, dia 26, data oficial do segundo turno. Segundo ele, a medida havia sido tomada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para evitar confusão na hora da votação. Depois de procurado pela reportagem, ele apagou a mensagem.

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