Nos passos do rei do Carnaval

O filme “Trinta” traz narrativa envolvente, mas que não está à altura do talento revolucionário de Joãosinho Trinta

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Cinebiografia. Matheus Nachtergaele vive o carnavalesco que começou a sua carreira no Salgueiro
fox film/divulgação
Cinebiografia. Matheus Nachtergaele vive o carnavalesco que começou a sua carreira no Salgueiro

São Paulo. Joãosinho Trinta enxergava um desfile de Carnaval como uma ópera. Mas cada criação também pode ser vista como um filme, afinal ambos reúnem diferentes elementos, linguagens e contribuições artísticas. Nesse sentido, sua cinebiografia “Trinta” pode ser considerada um daqueles desfiles corretos, decentes, que não corre o risco de ser rebaixado, mas não tem o brilho e o aspecto revolucionário que deram vários títulos de campeão a seu protagonista.

O longa acompanha Joãosinho (Matheus Nachtergaele) desde seus tempos como bailarino do Theatro Municipal do Rio de Janeiro até a execução de seu desfile de estreia, que lhe rende o primeiro prêmio, como carnavalesco do Salgueiro, em 1973.

Apesar de inspirado em fatos reais, “Trinta” se alicerça em uma narrativa ficcional. Por meio do personagem Tião (Milhem Cortaz), a obra chega, por exemplo, a criar um antagonista que nunca existiu: um diretor de barracão que se opõe à sagração de Joãosinho como carnavalesco.

As liberdades criativas estruturam uma história que funciona, fazendo o público torcer por um homem que foi humilhado, lembrado de sua baixa estatura e alvo de homofobia. Isolar e antagonizar o artista como forma de ressaltar sua genialidade não é uma estratégia nova – “Amadeus”, de Milos Forman, é um dos melhores exemplares –, mas é bem realizada pelo longa.

O grande problema de “Trinta” está em sua linguagem visual. O filme se propõe a contar a história de um homem que revolucionou o Carnaval carioca, mas o trabalho de Machline e da direção de fotografia não fazem jus a isso. A mise-en-scène é pobre e a fotografia quase não tem movimentos de câmera – o equivalente ao critério da “evolução” em um filme –, mostrando-se incapaz de traduzir no longa a fluidez, o ritmo e a vibração dos desfiles de Joãosinho.

O grande mérito técnico da produção está na belíssima trilha de André Abujamra, usada para realizar o casamento entre o erudito e o popular, como fez Trinta.

Na ausência de uma direção mais forte e segura, é a trilha que costura a narrativa e envolve o espectador.

Nachtergaele se firma como o centro do filme. Distante de suas figuras grandes e explosivas, como o Cintura Fina de “Hilda Furacão” e o Dunga de “Amarelo Manga”, ele se contém em um homem de extrema educação, que recebia os insultos calado e explodia somente em seu trabalho. “João tinha os nervos de grande criador. E grande arte surge da grande pressão, de um terreno sombrio frente a várias forças contrárias”, afirmou o ator.

Nachtergaele apresentou o longa como uma história sobre “o que um homem pequeno e simples pode fazer quando tem acesso à cultura”. “Trinta” é, sim, a história de um sujeito que mostrou, com sua arte, que era muito maior do que sua estatura sugeria. Faltou só um encenador com brilho semelhante – talvez um Milos Forman – para fazer o mesmo no cinema.

O repórter viajou à convite da Mostra Internacional de São Paulo.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave