Contra a maldição do espelho

“Acima das Nuvens”, que encerra CineBH amanhã, faz retrato divertido e hipnotizante da complexa arte de atuar

iG Minas Gerais | daniel oliveira |

Cena. ‘Acima das Nuvens’ se alicerça no pas de deux inusitado e hipnotizante entre Binoche e Stewart
California
Cena. ‘Acima das Nuvens’ se alicerça no pas de deux inusitado e hipnotizante entre Binoche e Stewart

São Paulo. O perigo de “Acima das Nuvens” – exibido na Mostra de São Paulo e que encerra o CineBH amanhã – é que o público pense que Juliette Binoche está interpretando a si mesma no filme. Ela não está. Binoche está fazendo uma crítica não a ela, nem a outras atrizes em específico, mas à ideia da “diva”, essa persona que atrizes criam para se proteger e mascarar suas inseguranças. Ela está interpretando Bette Davis – um tom acima do natural, o encontro perfeito entre teatralidade e esfinge.

A ideia, que parece ter saído do sonho de nove em cada dez gays ao redor do mundo, na verdade partiu da própria Binoche. Foi ela que propôs ao cineasta Olivier Assayas a premissa da atriz Maria Enders que, aos 40 anos, é convidada para um remake da peça “Maloja Snake”, em que ela despontou para o sucesso. Aos 18 anos, Enders interpretou Sigrid, a assistente que seduz Helena, uma empresária quarentona solitária. Agora, ela é convidada a viver Helena, enquanto a jovem estrela do cinema hollywoodiano Jo-Ann Ellis (Chloë Grace Moretz, numa mistura de Lindsay Lohan e Jennifer Lawrence) será Sigrid.

A indelicadeza da realidade é o que faz a protagonista ficar face a face com seus piores demônios. Maria Enders, a grande diva do teatro e do cinema, é a principal personagem que a atriz interpreta – o tempo todo, à perfeição. E viver Helena faz com que ela se dê conta de como as pessoas enxergam essa performance – que é bem diferente do que ela imagina.

Enders quer continuar Sigrid: jovem, moderna, sedutora, imprevisível. E enquanto a protagonista luta contra Helena, contra o tempo e a idade, tentando esconder suas inseguranças e fragilidades, Binoche as abraça sem medo – e, assim como em “Cópia Fiel”, faz mais um estudo revelador e complexo da arte de atuar. E o melhor elogio (sem ironias) que deve ser feito à atuação de Kristen Stewart, que vive Val, assistente de Enders, é que ela luta de igual para igual com a atriz francesa e não se intimida.

É no embate entre as duas que Assayas encena o jogo de espelhos de “Acima das Nuvens”. A relação entre Maria e Val reflete não só a trama de “Maloja Snake”, mas a própria discussão levantada no longa de como a narrativa extrafilme (ou extrapeça) passa, em certo momento, a interessar mais que o produto em si. Se Enders é uma personagem, sua vida é uma narrativa, e viver Helena faz com que ela perceba que essa narrativa se tornou bem menos atraente do que a da jovem estrela hollywoodiana que dirige bêbada, troca de namorados e dá entrevistas provocadoras.

O roteiro e a direção de Assayas revelam a crueldade e os efeitos disso nessas mulheres obrigadas a fazerem de suas existências uma performance a ser comercializada. O diretor faz do filme um palco para seu ótimo elenco brilhar, com longas cenas que ressaltam sua densidade teatral ao se encerrarem com fades que lembram o fechar de cortinas. Mas “Acima das Nuvens” é cinema, e de primeira qualidade, e Assayas deixa isso bem claro na metáfora do título original, que associa mulheres a nuvens: seres que serpenteiam e seguem um caminho imprevisível, sem obedecer a nada ou a ninguém, podendo servir como ótimos ou péssimos sinais – ou, simplesmente, desaparecer.

O repórter viajou a convite da Mostra de São Paulo

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