No abismo

iG Minas Gerais |

Nesta altura da campanha, os debates entre presidenciáveis atraem mais público que clássicos de futebol e colam na frente das telas uma plateia quase patologicamente fascinada. O ar é o que se respira numa luta até a última gota de sangue, aquela que, pessoalmente, como muitos outros, não se consegue ver. Não se consegue porque fere algum sentimento humano, talvez de solidariedade, de amor. As estocadas de um para outro levam a pensar: “A que ponto chegamos...” Como o destino de 200 milhões de brasileiros está em jogo, acabamos de descobrir o rol de parentes empregados nos meandros da administração pública, os nomes de mais corruptos abrigados em partidos e respaldados por eles, as circunstâncias de apropriações das receitas arrancadas do contribuinte espoliado para o maior confisco de rendas num país em desenvolvimento. E ainda no esquálido espetáculo de gestores públicos que se incensam por políticas de Papai Noel sem fórmula de saída do gueto. Aliás, onde o gueto acabou, também os eleitores acabaram por sair do cabresto. Lógico que o atraso é a melhor das hipóteses para manter o poder por meio de políticas assistencialistas sem conteúdo pedagógico. Ao vivo, um de frente para o outro, sem montagens, sem luvas nem capacete, os competidores se enfrentam com os golpes mais cruéis, abaixo da linha da cintura, na nuca, onde for, até revelar a última mazela cometida pelo adversário, ou mesmo não cometida e a ele atribuída com insinuações afiadas. O formato do debate, mais que para um público interessado no futuro do país, serve para animar torcidas como aquelas que vêm se formar em bares que oferecem telões para “curtir a pancadaria” entre “Excelências”. Os índices de audiência são espetaculares, desbancam qualquer outro programa. A expectativa monopoliza as conversas entre amigos e grupos de discussão. O tema do momento se volta às denúncias, às respostas apimentadas, ao espanto e às ironias que aparecem no semblante dos debatedores... Aecistas escracham Dilma, e dilmistas dão o troco na mesma moeda. O Brasil vem assim se dividindo em duas torcidas fanáticas que cantam as jogadas do seu craque e esquecem os bons lances do adversário. Mas nem tudo o que faz barulho é importante. Existe uma categoria de menor número, mas, neste momento determinante, que poderá decidir o resultado apertado. Ocorre que um razoável número de eleitores não concorda com toda a lama que escorre e assim deixará de votar em um e no outro, acrescentando-se ao contingente de 10% do eleitorado que pretende anular seu voto. Pois é exatamente quem se “anula” com o voto branco que pode determinar o resultado final. É exatamente nisso que tende a levar a melhor a candidata Dilma. Simplesmente por contar com um eleitorado mais antigo, mais fidelizado, temperado e vacinado por 12 anos de contínuos escândalos do lulopetismo. Esse eleitor que passou pelo “mensalão julgado pelo STF” se mudar de lado é nitidamente refratário a denúncias de improbidade ou de qualquer crime. Assim, quem tende a perder eleitores que anularão seu voto num ambiente de “vale-tudo” e de generalização das acusações parece ser o candidato Aécio, que conta com um eleitor mais recente, que o conhece de pouco tempo, menos “curtido”, enfim, não tão fidelizado por conhecê-lo há poucos meses e ainda em fase de “namoro”. A baixaria favorece Dilma e deverá ser a arma principal dos debates que faltam. Explica-se essa estratégia na denúncia que Dilma levou ao debate de uma suposta propina recebida pelo já enterrado Sérgio Guerra, senador de Pernambuco e presidente do PSDB, para desistir de levar à frente uma investigação de desvios da Petrobras. Ela assume que seu partido teria comprado um senador tucano. Na dúvida que o senador teria recebido, lança a certeza de que o partido dela subornou parlamentares, nesse caso o senador tucano. Isso seria apenas paradoxal, mas comprova a desavergonhada corrupção que faz parte da “política recorrente” de pagar parlamentares e corromper. Já se viu um presidente assumir tamanha corrupção para respingar no adversário? Quer dizer, quanto mais, melhor para mim? Isso se direciona a descolar eleitores frágeis em ponto de indecisão que atinge muito mais o eleitorado do adversário que o dela. Mas esses eleitores poderão fazer a diferença. Aécio deve ter provavelmente uma leitura diferente (ou confusa), Dilma, não, demostra-se absolutamente convicta de que quanto pior, melhor, mais vantagem poderá tirar, já que conta com um eleitorado “craca de rochedo”, enquanto o de Aécio é vegetação recente e de poucas raízes – conseguida em parte pelo repúdio aos métodos atribuídos a sua adversária. Esse eleitorado possui aspiração para mudanças que vem sendo frustrada? A tendência para “mudança” que empurra Aécio é menos sólida. Dilma quer arrastá-lo a um abismo em que ela se acostumou a sobreviver. Assistiremos assim a um final dramático, de golpes e contragolpes talvez sem tempo para ouvir um compromisso com a nação, com avanços que já são inadiáveis. Isso, mesmo no abismo, faz uma tremenda falta. É isso que se espera de um presidente.

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