Liberdade ou libertinagem?

iG Minas Gerais |

Ilustração Hélvio Avelar
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A sinopse do filme francês “Um Amor em Paris” é bem clara e clássica: “Brigitte (Isabelle Huppert) e Xavier (Jean-Pierre Darroussin) levam uma boa vida no pacato interior da França. Os negócios na fazenda prosperam, e os filhos já saíram de casa para tomar conta de suas próprias vidas. Homem de poucas palavras, Xavier passa a maior parte do tempo cuidando de seus bois, enquanto a sonhadora Brigitte é mais sofisticada e espera algo mais. Para escapar da monotonia do dia a dia, ela decide passar um fim de semana sozinha em Paris, onde descobrirá o sabor da liberdade”.

É nítido que o personagem masculino é um acomodado e metódico homem do campo, enquanto a mulher é curiosa, em constante ebulição e prestes a iniciar uma desnorteada tentativa de autodescoberta. Essa curiosidade foi instigada quando ela acabou sendo galanteada por um homem mais jovem, Stan (Pio Marmaï), ainda em sua cidade, o que a levou à capital francesa. Ao vagar perdida pelas ruas parisienses, Brigitte é a imagem explícita do interesse em querer ver a vida sob outra perspectiva – a da inquietude e da liberdade. Após deixar completamente de lado o motivo que a levou à cidade grande (ela disse ao marido que iria ao médico buscar um tratamento para uma doença de pele), Brigitte procura e acha o belo jovem que se interessou por ela. Só que, logo, a protagonista percebe que eles não têm nada em comum e segue pra outra, como se Stan nem tivesse aparecido em sua vida. Então, eis que surge um dinamarquês mais velho, e ela acaba se entregando àquela outra paixão proibida.

Essa luta existencial de Brigitte não é movida pela certeza. Pelo contrário. Cheia de dúvidas, ela quer provar do improvável, do ilegal, e se joga de cabeça nos perigosos jogos extraconjugais. Quer interagir com o mundo estranho ao seu habitual como se dele extraísse forças não para fugir, mas para redescobrir motivações particulares que a deixassem mais viva, mais iluminada, menos indiferente.

Tem muita gente por aí que pensa assim. Coloca a máscara do “tô nem aí” e segue o caminho do “sou mais esperto do que você imagina”, atropelando as barreiras da sociedade “faça amor, não faça regras”. Mas todo mundo sabe que não é assim que funciona. Uma punhalada nas costas dói muito mais que uma negação frente a frente. Talvez fosse necessário, para qualquer ser humano, um fim de semana em Paris para que todas as dúvidas fossem sanadas. Vai pra Cidade Luz, prova do pecado e volta certo do que quer, e muito mais do que não quer. Porém, é outro ser humano que está envolvido do outro lado, e ninguém deve provar dos beijos da traição, dos afagos do fingimento, muito menos dos abraços fartos da falsidade.

Também tem muita gente por aí que se autodefine neoliberal, diz que lida muito bem com essa tal liberdade, mas vive no pântano da hipocrisia, na lama da trapaça, na escuridão da duplicidade. Quem sou eu para dizer o que é certo ou errado? E quem sou eu para chamar a astúcia de molecagem, ou a esperteza de pilantragem? Só queria ver o tal espertalhão provar da mesma moeda da traição. A sinceridade e o respeito sempre serão a base de qualquer relação.

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