O primeiro dia

iG Minas Gerais |

Há uma cena do filme “Vicky Cristina Barcelona” em que uma das protagonistas revira a mala e troca de roupa diversas vezes para passar a impressão de não estar tão ansiosa pelo encontro com Javier Bardem. Woody Allen traduz nossas fragilidades e inseguranças e as converte num sorriso reflexivo. Afinal, quem nunca? Eu me lembro de ter usado amarelo quando fui fazer uma prova para trabalhar em O TEMPO. Quando vi os concorrentes todos discretos, nos mesmos tons, pensei: e agora? Seria impossível voltar para casa e improvisar um terninho. Eu havia escolhido amarelo porque era a cor da sorte da minha avó. Deveria ter lido aquele famoso consultor de etiqueta corporativa? Não necessariamente. Eu, a roupa e o primeiro dia para quase tudo na vida somos um eterno caso pitoresco. Como Vicky, eu visto todo tipo de proposta num encontro. Quando conheci meu marido, estava num vermelho decotado e o puxei, tímido que só, para dançar The Cure. No meu primeiro dia no novo emprego em Brasília, mandei os looks por WhatsApp para minha mãe e minha irmã escolherem. Estava ótima de seda verde até babar com a espuma do creme dental no tecido depois do almoço. Pronto, será que vão me achar meio pateta? Ao menos, meus dentes estão branquinhos, pensei. Primeiro dia é dia de frio na barriga, dia de “o que é que vão pensar de mim”, dia de “não acredito que falei essa besteira” e daquelas apresentações formais. Conto para que chegue lá pelo sexto ou oitavo dia para poder quebrar o gelo, usar um tênis ou sugerir: a gente bem que podia combinar um café, heim? Admito que ainda me atrapalho com o tal do “Casual Friday,” aquele dia em que os colegas da firma usam jeans. Já apareci de camisa social e me senti tão inadequada quanto a personagem título vestida de coelhinha na cena de “O Diário de Bridget Jones.” Quando o tempo passa sem que eu perceba, vou alternando dias de ficar enrolada na toalha – bolando duas ou três possibilidades de vestir que dependem do meu humor, do meu manequim e do que quero dizer para o mundo – com dias de essa combinação está ótima, é o que temos. Eis que chega o último dia. Ele, de alguma maneira, me despe. Penso que nada cabe porque sobra tanto a se dizer, tanto a querer o impossível: de se voltar atrás, de fazer de outra maneira, de ter usado mais amarelo. Queria ficar um pouquinho mais pelo respeito e pelo carinho que construí com a turma da redação e com os leitores nos últimos anos. A eterna falta daquele outro tempo não me dá alternativas. Certamente, não agradei todo mundo, mas fiz o meu possível, como se estivesse vestindo a roupa do primeiro dia. Muito obrigada, um abraço e até, breve quem sabe. Ludmila Azevedo é jornalista, pós-graduada em cinema e escreve essas e outras crônicas no ludj.blogspot.com.br.

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