A vanguarda de Zélia Duncan

Cantora apresenta o formato completo do show “Tudo Esclarecido”, interpretando canções do ídolo Itamar Assumpção

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

No palco. Zélia Duncan revisita canções de Itamar Assumpção, incluindo o que chama de duas surpresas
Roberto Setton
No palco. Zélia Duncan revisita canções de Itamar Assumpção, incluindo o que chama de duas surpresas

Nos anos 1980, quando ainda era um adolescente residente em Brasília, a capital do BRock, Zélia Duncan não dava tanta bola para guitarras sujas porque só queria tentar a sorte como vocalista da banda Isca de Polícia, de Itamar Assumpção (1949-2003). “Eu era muito criança e não tinha como, mas era um sonho. Tive paciência para absorver sua genialidade”, diz a cantora. Dessa paciência surgiu o show “Tudo Esclarecido”, em cartaz há um ano e meio pelo país, mas que chega em formato completo à capital mineira pela primeira vez amanhã à noite, no Sesc Palladium, após quase três décadas de uma espera pessoal da artista.

A ideia é antiga, mas só pode ser realizada na comemoração aos 30 anos de carreira da artista – completados ano passado. Mesmo assim, Zélia está acostumada ao repertório de Itamar Assumpção: regravou 11 canções dele ao longo de sua trajetória. Nada subliminar ou programado em caráter de homenagem. Afinal, Zélia Duncan não é apenas uma admiradora da obra do compositor chave da Vanguarda Paulista, e sim mantenedora de uma “paixão involuntária e natural” pelos impactos que Itamar Assumpção causou na música brasileira.

“Minha coisa sempre foi a seguinte: gosto dele parado, cantando, compondo, numa fotografia segurando um violão com um sorriso. De todo jeito. Vai além de ter sido o underground que ignorou as gravadoras, mas ainda sim se tornou popular, ou por toda a poesia apuradíssima dele, à frente do seu tempo. Gravei ao longo da minha vida porque ele parecia me completar sem saber”, diz.

Desta forma, “Tudo Esclarecido” parece desenhar os dois lados que Zélia Duncan viveu com Itamar Assumpção: primeiro, o da garota radicada na capital federal que sonhava em ser backing vocal do ídolo; depois, o de amiga do artista e uma das intérpretes preferidas, ao lado de Tetê Espíndola, Ná Ozetti, Suzana Salles e Cássia Eller. “Não é um show cronológico com canções e homenagens pontuais datadas. É bem mais poético do que isso porque reverencia um homem e uma obra”, diz.

SHOW. Em um universo de luzes baixas e intimistas, a diretora musical Bel Teixeira é a responsável por criar no palco uma áurea que começa com o pôr do sol, chega ao cair da noite e termina com a madrugada alta (“essa montagem é uma ideia de comparar o show com o caminho que percorri até o álbum”, pontua Zélia Duncan).

Nesse cenário, a artista resgata desde a primeira canção regravada de Itamar Assumpção na carreira, “Vou Tirar Você do Dicionário”, presente no álbum “Intimidade” (1996), até uma canção composta pelo ídolo especialmente para Zélia Duncan, intitulada “Zélia Mãe Joana”. “Essas duas são as minhas maiores surpresas. A primeira era a minha favorita de Itamar quando ele me convidou por telefone, sem me conhecer, em 1995, para cantar com ele no Sesc Pompeia. A segunda está em uma demo que gravei com ele, depois que ele me entregou essa letra numa folha de calendário, como um carinho mesmo”, diz.

O show também revela diversas influências de Zélia Duncan refletidas nas faces de Itamar Assumpção, como a fase pop e folk presentes na balada “Tua Boca”, o suingue carioca do samba-rock “Cabelo Duro”, além de canções da última safra da vida do artista, como “Justo Você Berenice”, gravada no álbum “Isso Vai Dar Repercussão”, ao lado de Naná Vasconcelos.

Como uma espécie de cereja do bolo, Zélia Duncan ainda revisita cinco canções da principal parceira de Itamar Assumpção, a poeta Alice Ruiz, incluindo no repertório pérolas como “Quem Mandou” e “É de Estarrecer”. Para a cantora, é o lado mais lírico de Itamar Assumpção. “Com a Alice, ele revela uma poesia mais romântica ou talvez mais aberta. Gosto muito disso”, diz.

Entre as canções de Itamar Assumpção, Zélia Duncan também promete um pout-pourri de sucessos como “Catedral”, “Não Vá Ainda” e “Alma”.

Agenda

O QUE. Show Zélia Duncan

ONDE. Grande Teatro do Sesc Palladium (rua Rio de Janeiro, 1.046, centro).

QUANDO. Amanhã, às 21h

QUANTO. Os ingressos são trocados na bilheteria do teatro, mas já estão esgotados.

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