Na arte e na guerra

Livro lançado nos EUA e inédito no Brasil resgata trajetória desconhecida de cinco dos maiores diretores de Hollywood na Segunda Guerra Mundial

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

CONTINUA NA PÁGINA 3

[NORMAL_A]Os diretores Frank Capra, George Stevens, John Ford, John Huston e William Wyler estão entre os maiores mitos da era de ouro de Hollywood. Em filmes como “A Mulher Faz o Homem”, “Assim Caminha a Humanidade”, “No Tempo das Diligências”, “Relíquia Macabra” e “Ben-Hur”, eles escreveram seus nomes na história do cinema, criando alguns dos heróis mais icônicos da sétima arte. O que pouca gente sabe é que os cinco foram, eles mesmos, heróis – durante a Segunda Guerra.

É essa história desconhecida que o jornalista e historiador do cinema Mark Harris conta no livro “Five Came Back – A Story of Hollywood and the Second World War” – lançado nos EUA no início do ano e com previsão de chegada no Brasil pela editora Objetiva em 2015. A obra acompanha a trajetória, entre 1939 e 1945, dos cinco cineastas que se alistaram e, se não efetivamente pegaram em armas, participaram de algumas das batalhas e momentos mais importantes do conflito, registrando tudo em documentários que foram essenciais no esforço e na propaganda de guerra aliada.

Assim como em seu livro anterior – “Cenas de uma Revolução”, que analisou as transformações sociais nos EUA do fim da década de 60 a partir da produção dos cinco filmes indicados ao Oscar em 1968 – Harris usa a história de Capra, Stevens, Ford, Huston e Wyler para fazer um retrato cultural e político da América em guerra.

Ao mesmo tempo em que revela a zona cinza ética e moral dos filmes de propaganda realizados pelos diretores para convencer uma população que, em grande parte, ainda via o conflito na Europa como algo que não dizia respeito a eles, o livro mostra o efeito desse trabalho nos cinco artistas – como ele reflete e amplifica o momento que eles viviam em suas carreiras, transformando profundamente seu ofício e ajudando na construção dos mitos em que viriam a se eternizar.

Em nenhum deles, essa transformação fica mais clara do que na trajetória de George Stevens. Conhecido por comédias românticas como “A Mulher do Dia” e filmes leves como seus curtas com “O Gordo e o Magro”, o cineasta já tinha quase 40 anos quando se alistou e acabou no pelotão que libertou Paris em 1944. Seguindo com eles, o diretor fez parte do grupo que chegou em Dachau, primeiro campo de concentração descoberto pelos aliados. Stevens registrou tudo com sua câmera, e a forma gráfica e palpável como Mark Harris descreve o impacto do cenário em pessoas que não tinham ideia do que era aquilo traduz todo o horror diluído em tantas histórias já contadas do Holocausto.

“Todo o mal do mundo é exposto em um dia num campo de concentração. Eu odiava os bastardos alemães. O que eles fizeram foi a pior coisa que aconteceu em séculos. Ainda assim, quando um pobre coitado, faminto e cego, me encostava e começava a implorar, eu sentia o nazista em qualquer ser humano. Eu me sinto um nazista porque abomino esse homem e quero empurrá-lo para não pegar seus piolhos. E o motivo de eu abominá-lo é porque me vejo capaz de arrogância e brutalidade para afastá-lo. É algo cruel de descobrir em si mesmo: aquilo que você mais despreza”, Stevens escreveu em seu diário.

Stevens, que era especialista em extrair o humor de situações humilhantes e cruéis, nunca mais dirigiu uma comédia depois da guerra. Realizou dramas sombrios como “Um Lugar ao Sol” e “Assim Caminha a Humanidade”, pelos quais ficaria eternizado. Suas filmagens em Dachau foram exibidas no julgamento de Nuremberg e foram fundamentais na condenação dos nazistas pelos crimes de guerra. Nas palavras de Harris, “o filme de Stevens fez o que semanas de depoimentos não conseguiram: tornou os crimes dos alemães irrefutáveis, e seus destinos, inevitáveis”.

Mas não pense que “Five Came Back” se resume a endeusar ainda mais a mitologia de seus protagonistas. O autor parte de um inimaginável trabalho de pesquisa, cujas fontes – diários, biografias, familiares, militares, documentos do governo e do Exército – ocupam quase 50 páginas no fim do livro. Isso lhe permite revelar verdades e revisar mitos que os próprios diretores construíram a respeito de si mesmos.

Caso claro é o de John Ford. Patriota e sempre disposto a provar a imagem de “durão machão” que tinha de si mesmo, ele foi um dos primeiros a se alistar em Hollywood e o primeiro diretor norte-americano a registrar uma batalha no solo do país, durante o ataque japonês ao arquipélago de Midway, no Pacífico, em 1942.

As imagens, de um realismo nunca visto no cinema hollywoodiano, foram filmadas em meio a tiros e rasantes de aviões. O resultado, o documentário “The Battle of Midway”, rendeu um dos vários Oscars de Ford, que ainda tripulou a frota que chegou na Normandia no Dia D. O diretor, porém, afirmaria nos anos seguintes que estava no primeiro pelotão que desembarcou no continente, o que Harris prova com documentos do Exército que não é verdade – ele só desceu dias depois. Da mesma forma, Ford dizia que várias das imagens mais chocantes de “Midway”, feitas por cinegrafistas que arriscaram suas vidas, haviam sido filmadas por ele.

E os demônios do cineasta – manifestados no alcoolismo, em porres homéricos que duravam por dias – tiveram uma catarse sem igual durante a guerra, resultando em um final nada glorioso para a trajetória do diretor. Como nos faroestes revisionistas do fim da carreira de Ford, todo grande mito de heroísmo implica na eliminação do lado negro da história.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave