A pintadinha dos ovos de ouro

Produção de desenhos cresce no Brasil devido à internet e aos dispositivos portáteis; exposição imoderada, porém, continua nociva

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Escolha. Théo assiste diariamente à “Galinha Pintadinha”, “MPBaby” e “Bita e os Animais”, seus preferidos
Arquivo pessoal
Escolha. Théo assiste diariamente à “Galinha Pintadinha”, “MPBaby” e “Bita e os Animais”, seus preferidos

Théo tem um ano e quatro meses. Todos os dias ele acorda às 7h30 e passa a manhã com sua mãe, Cássia Rodrigues Costa, 32. No período da tarde, Théo vai para a escola e, no máximo, às 21h30 está dormindo novamente. Durante sua rotina, ele fica ligado nos desenhos em diferentes horários: um pouco na TV, na parte da manhã, e durante o almoço e jantar no iPad. “Ele assiste, em média, de uma hora e meia a duas horas por dia”, afirma Cássia.

Diferentemente de décadas atrás, quando era possível ver desenhos exclusivamente pelo televisor, Théo pode assistir a desenhos animados na sala, no carro e até na rua com a facilidade de não ter que esperar pela exibição em um canal, com um simples acesso à internet. Esse cenário vem causando um rearranjo no mercado audiovisual que cada vez mais está menos dependente de canais de TV, que detinham a exclusividade de distribuição em massa.

Atualmente, a convergência entre internet e televisão e a proliferação de dispositivos móveis, como tablets e smartphones, têm servido como o alicerce para que produtores de animações infantis tenham êxito em um mercado até pouco tempo dominado exclusivamente por grandes estúdios.

Embora haja bons exemplos para ilustrar essa situação, como “Os Pequerruchos” e “A Turma do Seu Lobato”, o mais conhecido é a “Galinha Pintadinha”. Criada em 2006, por Juliano Prado e Marcos Luporini, a personagem não teve boa recepção por parte de empresários de TV à época. Para surpresa da dupla, pelo público sim. “O vídeo era apenas um projeto quando o subimos no Youtube para que ele fosse mostrado em uma reunião de executivos de um canal, que não ficaram interessados. Entretanto ele ficou no ar e despertou o interesse dos pais que nos pediam mais histórias musicais”, relata Prado.

De lá para cá, a Galinha Pintadinha, que faz uso de canções populares em seu repertório, tornou-se um fenômeno. Atualmente, contabiliza cerca de 1,35 bilhão de visualizações na plataforma de transmissão de vídeos, vendeu mais de 1,8 milhões de DVDs e está na lista de programas transmitidos pela Netflix (a empresa não divulga estatísticas de visualizações). Agora, a dupla quer alçar voo internacional. “Estamos traduzindo nossos vídeos para o inglês e o espanhol. Também somos procurados para adaptar o conteúdo para outros idiomas como o italiano, francês e polonês. E pensamos em criar um longa-metragem”, adianta Prado.

Todo esse sucesso, porém, não é fruto apenas da qualidade de conteúdo do desenho. A produção e o consumo de vídeos vêm mudando nos últimos anos, de forma que produtores independentes tenham possibilidades de conduzir um negócio de sucesso. “A grande vantagem é a independência que um projeto via internet proporciona”, declara Prado.

Para Sérgio Saslavsky, sócio-diretor da MCD, empresa responsável pela criação da animação MPBaby, que conta com parceria de grandes nomes do segmento como Palavra Cantada e Hélio Ziskind (compositor de músicas para “Castelo Rá-Tim-Bum” e “Cocoricó”), a independência vem da possibilidade de crescer sem as emissoras. “O mercado de desenhos infantis sempre esteve aquecido, mas antes os produtores ficavam atrelados à TV por ela ser primordial na distribuição de conteúdo. Hoje há diversas plataformas digitais que substituem essa relação, gerando novas oportunidades”, afirma.

E para quem quer aproveitar o contexto favorável do mercado brasileiro para entrar no segmento, Saslavsky faz um alerta: “O processo não é tão simples, a produção precisa cair no gosto dos pais e das crianças, é necessário um trabalho árduo, diário e custoso de divulgação. Sem falar na distribuição nas diversas plataformas existentes (inclusive a física no formato de DVD, que ainda é muito importante para esse público), ou seja, é fundamental ter uma estrutura para ir adiante, quem não tem essa estrutura dificilmente terá sucesso no médio e longo prazo”, profetiza.

A Estética. É interessante pensar que o pequeno Théo sequer imagina que essas transformações estão acontecendo para que ele possa usufruir de seus desenhos. Para ele, assim como para crianças de 0 a 4 anos, é preciso muito menos para chamar a atenção, um “menos” que os desenhos vêm fazendo com perfeição. “Toda criança gosta de ver cores vivas e desenhos com contornos bem definidos; caso contrário, o cérebro dela terá dificuldades para assimilar a informação, causando desinteresse”, afirma o neurologista Leandro Telles.

Basicamente, nenhuma sofisticação gráfica é bem-vinda. Nada de degradê, sombras ou bordas nos contornos dos personagens ou do cenário. “Os movimentos também devem ser pouco articulados, mais grosseiros, para que a criança consiga manter a imagem na retina”, diz Telles.

Assim como as imagens, a música deve seguir o mesmo caminho. “As canções infantis são melódicas e cíclicas; caso contrário, a criança não consegue compreender. Elas também são pegajosas, com composições rítmicas simples e com letras repetitivas, sendo de fácil assimilação. É algo que a ‘Galinha Pintadinha’ faz muito bem, inclusive coloca uma bolinha pulando de palavra em palavra, juntando assim imagem e som”, ressalta o neurologista.

Essa junção de elementos tem um papel muito importante para o desenvolvimento infantil, segundo especialistas. “Contribui para o desenvolvimento cognitivo da criança, que passa a contar, identificar cores e outras exercícios. É claro que não pode ser exagerado”, adverte a psicanalista infantil e especialista em psicomotricidade Suzana Veloso Cabral.

Galinha Pintadinha Desenho mais famoso entre as crianças foi criado em 2006 e já tem canais no Youtube em espanhol e inglês. Disponível: Youtube, DVD, Blu-ray, Netflix, apps para Android e iOS. DVDs vendidos: 1,8 milhões No Youtube: . Inscritos: 2, 7 milhões. . Vídeo mais visto: “Pintinho Amarelinho”, com 191,5 milhões visualizações.

Os Pequerruchos Paulinho, Aninha, Fabinho, Dudinha e Pepinho são os personagens da série que interpretam canções populares, como “A Dona Aranha”, desde de 2011. Disponível: Youtube, DVD, Netflix, app para Android e iOS. DVDs vendidos: não informado No Youtube: . Inscritos: 31.728 mil . Vídeo mais visto: “A Linda Rosa Juvenil”, com 3,28 milhões de visualizações.

A Turma do Seu Lobato Músicas com foco em higiene, educação e meio ambiente são cantadas por seu Lobato e sua turma em ritmos variados, como rock, desde 2011. Disponível: Youtube, DVD, Netflix, app para Android e iOS. DVDs vendidos: não informado. No Youtube: . Inscritos: 13.365 . Vídeo mais visto: “O Sítio do Seu Lobato – Volume 1”, com 1,73 milhões de visualizações.

Coleção MPBaby Criado em 2004, desenho traz amigos que vivem na floresta. Lá, cantam músicas variadas, além de instrumentais de clássicos do rock e da MPB. Disponível: Youtube, DVD, Netflix, app para Android e iOS. DVDs vendidos: 750 mil No Youtube: . Inscritos: 10.330 . Vídeo mais visto: “Samba Lelê”, com 679.441 visualizações

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